19 de agosto de 2008

Prometeu e o "Quarto escuro"


Prometeu e o "Quarto escuro"

Há muitos, mas muitos milhares de anos os nossos ancestrais desconheciam como fazer lume, iluminar voluntariamente as cavernas onde viviam, cozinhar. Presume-se que a “descoberta do fogo” ou seja passagem do desconhecimento de qualquer técnica para atear o fogo a qualquer material à forma voluntária, consciente de queimar madeira ou folhas com o objectivo de fazer luz, iluminar, cozinhar ou mesmo afastar os animais e principalmente o medo que a incerteza da escuridão provoca terá sido empírica e acidental. O ser humano ao observar os fenómenos que ocorrem na natureza de forma acidental e espontânea aprendem a tirar partido deles, a usá-los em seu proveito, a provocá-los e a dominá-los. Assim aconteceu com o fogo, a LUZ. O ser humano nos seus primórdios terá pegado, usando qualquer suporte (uma pedra, um pedaço de madeira, qualquer objecto), para levar consigo algumas folhas secas nas quais terá caído um raio, ou mesmo ateadas pelos raios de sol o lume para a entrada da sua caverna para aumentar as horas de luz ou afugentar animais e medos. Ésquilo (525 a.C. – 456 a.C.) na lenda “Prometeu acorrentado” escreve a interpretação mitológica da descoberta do fogo. Prometeu rouba o fogo do Olimpo e oferece-o ao Homem sendo por isso catigado severamente, acorrentado, tendo sido posteriormente liberto por Hércules passando a guardião e deus do Fogo.

Sempre me senti incomodada na escuridão. Posso, até, dizer que tenho medo, pavor, do escuro. Não tenho memórias de infância, ou terei muito poucas. Limitam-se as minhas memórias de infância aos cheiros do Natal, ao ir buscar o Folar da Páscoa (um Pão de Ló) a casa dos meus Padrinhos, o imenso calor no dia da minha Comunhão solene/Crisma e do lindíssimo vestido que a minha Mãe adaptou para eu vestir nesse dia e já tinha sido vestido pelas minhas irmãs e prima, a voz dos meus avós paternos (“Meus meninos de onde viestes? Da Inglaterra. Debaixo da terra? Ai, coitadinhos. E o que comíeis lá? Presunto. Defuntos? Ai, coitadinhos…”) dos verões em convívio com os Beneditinos que iam passar as férias a Azurara muro com muro com a nossa casa e eu via-os de batina e escapulário pretos de breviário aberto nas mãos a percorrerem “o carreiro” ladeado de agapantos e outras flores nos dois sentidos a rezarem aquilo que agora sei serem as Horas. As memórias que tenho da casa como ela era na nossa infância são muito vivas e eu acho que seria capaz de a percorrer, ainda, de olhos fechados sem tropeçar passados que são mais de trinta anos de ela ter deixado de ser como era. De olhos fechados mas luzes acesas para me sentir segura e ver à minha volta quando os abrisse pois eu tenho pavor do escuro. Tenho uma táctica para afugentar esse pavor quando por qualquer razão está escuro e me é impossível acender a luz: cantarolo. Quando era muito criança chorava. Depois, não sei bem se por vergonha, pois desde muito cedo aprendemos que não devemos chorar em circunstância nenhuma, aprendi a cantarolar enquanto atravesso um lugar sem luz.


Na nossa casa havia um “quarto escuro” e eu lembro-me que lá eram guardadas as coisas pouco usadas em estantes ao lado esquerdo quem entrava. Era nesse quarto escuro que algumas vezes, eu recordo, eram trancados os “meninos maus” para serem castigados das travessuras mais ousadas. Não me recordo se alguma vez me calhou essa “sorte”, se calhou o meu cérebro apagou essa memória. O certo é que apenas de pensar nesse quarto eu fico angustiada. Talvez que esta angústia seja sinal de que lá tenha estado alguma vez a cumprir alguma pena por alguma travessura mais ousada.

Os quartos escuros não desapareceram da minha vida. Há algumas situações que me fazem sentir a mesma angústia dolorosa, o mesmo pavor, exactamente como se alguém me tivesse trancado num quarto escuro. Quando, sem entender qual terá sido a travessura ousada, sinto a porta a fechar-se, a chave a rodar e o espaço onde estou ficar, de repente, sem qualquer luz, sem um fresta por onde entre nem que seja um ténue raio de Sol, começo por cantarolar. O tempo vai passando e a voz saindo mais forte, tão forte como o medo, o pavor e quando o cantar alto já não chega, entro em choro que de repente é convulso, incontrolável e quando eu grito desesperada “até quando??” e ouço do lado de fora “…só às 22:00 perfazem 10080 minutos” Não há indulto! Ainda faltam 310 minutos e nem sei de que “crime” sou acusada, o choro para e um misto de esperança e desalento instalam-se e eu acabo por, finalmente, adormecer, mas no meu cérebro mantêm-se a pergunta: “qual foi, desta vez, a travessura que ousei fazer?” E quando acordo ao som da chave a rodar e o Sol me cega por demasiados dias na escuridão não tenho respostas, apenas os raios do Sol a cegarem-me, a aquecerem-me os ossos e a vida, a tristeza infinita e a insegurança de “estarei a comportar-me mal ou a ousar mais alguma travessura que não tenho consciência de ter cometido? Onde é a porta do tal quarto escuro? Como evitar que ela se feche? Não sei, cada vez as respostas são menos e o quarto? Onde fica o quarto? O que pensará e sentirá Prometeu quando me priva do Fogo e da luz?

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Do outro lado da porta do quarto escuro nada se move. Só silêncio gélido.

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Os fantasmas dançam nas paredes e no tecto do quarto escuro. Não sei quando termina o dia e começa a noite lá fora pois aqui à noite sucede-se a noite. Não fecho os olhos, não durmo pois receio que os fantasmas deixem as paredes e o tecto e me povoem sonhos e dancem entre gargalhadas de escárnio "Nhã, nhã, nhã, nhã, babona que estás no meio, oh babona, és mesmo uma toleirona, oh babona, nhã, nhã, nhã, nhã" e eu sem dormir as gargalhadas a explodirem-me os olhos desorbitados de escuridão...as mãos suadas...há quantos dias não durmo

28 de julho de 2008

Última crónica Ilha-Mãe

Prometo que irei colocar a capa do livro num tamanho "decente" mal chegue a casa
Bom dia!

A decisão que me foi anunciada informalmente na sexta, 19 de Julho, do fim das minhas crónicas não foi propriamente imprevista pois a Ana Paula já de há um ano a esta parte me dizia que a antiga direcção queria remodelar a grelha de programação e nela não haveria lugar para as minhas crónicas. O certo é que o me ter sido dado conhecimento assim a sangue frio no meio do Festival de Blues quando o convite para as fazer foi rodeado de certa formalidade, surpreendeu-me pois ainda não há nova grelha e ao que consta só haverá em Outubro. Mas fui instada a escrever a última e, com atraso por questões de doença para cumprir a data imposta, é isso que estou a fazer: a escrever a minha última crónica. Os argumentos para a cessação da realização das crónicas colhem, pois como se lembrarão e eu expliquei na primeira crónica lida no dia 01 de Março de 2004 o convite foi feito telefonicamente mas apesar da relutância da minha parte foi motivo de uma reunião com todos os convidados, na altura Nuno Barata, Emanuel Soares, Sérgio Ferreira, Nélia Figueiredo que não compareceu à reunião e acabou por ser substituída no projecto por José Humberto Chaves que desistiria passadas poucas semanas e eu para se definir o que seria a Crónica do Dia e “sortear” o dia de cada participante. O objectivo da “Crónica do dia” seria a apresentação por parte de cada um dos representantes de cada uma das formações políticas mais significativas em Santa Maria dos seus pontos de vista sobre a realidade mariense e regional. Pena que depois da desistência de José Humberto Chaves tenham, um a um, desistido os restantes cronistas e que no final de Junho de 2004 (as últimas crónicas publicadas por eles no Blogue “A Crónica do dia” têm data de 22 de Junho) apenas eu teimasse em honrar o compromisso. Nem sempre foi fácil e durante os dois anos de “ausência” no continente tornou-se particularmente difícil acompanhar o “pulsar da Ilha” pois cada vez que eu perguntava a alguém “E então, novidades?” a resposta era quase invariavelmente “O costume, nada” O certo é que eu passado uns dias vinha a saber que afinal tinha acontecido uma reunião internacional sobra a importância da Ilha durante a Segunda Guerra, que o livro Ilha-Mãe de Daniel de Sá tinha sido lançado e muitos outros eventos… Mas muitas vezes tive a angustiante experiência do vazio diante da “Folha em branco” do monitor do meu computador. Mas lá fui cumprindo e gravando a “Crónica do dia hoje com assinatura de Ana Loura” para agrado de alguns e o desagrado de outros, tendo estes sempre a hipótese de mudarem por 10 minutos de estação radiofónica para não terem de gramar uma coisa que na sua opinião “já ninguém pode ouvir, acabe com as crónicas” como alguém teve a coragem ou a lata de me dizer publicamente. Acontece que, chegado o dia da última crónica, tenho a certeza de que faltou dizer tanta coisa, tanto eu tinha ainda para partilhar. Mas quando nos dizem que é a última e nos dão a hipótese de nos despedirmos temos de escolher entre esses temas que gostaríamos de partilhar um que nos seja querido. E, nada mais querido do que a própria Ilha, Santa Maria Ilha-Mãe onde vivo, onde nunca, apesar da minha ausência deixei de viver “Porque Santa Maria é a ilha dos cheiros fortes, intensos, de tal maneira que não faria falta ver de olhos abertos para saber onde se estava. O próprio Raul Brandão deu por isso e chamou-lhe “a ilha que cheira bem”. E não eram só os cheiros das construções em que dominava a madeira, a chapa e o papelão. Eram sobretudo os aromas da terra amodorrada pelo calor. Do poejo, da macela, da murta, das giestas, das acácias, dos eucaliptos, dos pinheiros. Da vida.”…” O Terminal era o passeio dos pobres. O deslumbramento de ver oiros e pratas, relógios caros, gente estranha que chegava e partia falando quase todas as línguas do Mundo. Os elegantes Super Constellation da TWA, os sólidos DC6 da Pan American, o belo azul da KLM, as cores garridas da Guest Aerovias. E a VARIG, a Iberia, a Air France, a Avianca... O sonho ao alcance do olhar.”
“Não sei a razão que levou a criar-se a lenda, em que muita gente acredita, que estas ilhas foram povoadas pela escumalha do Reino. Fidalguia da melhor, a começar por Gonçalo Velho Cabral, comendador de Almourol, a quem se juntaram alguns familiares seus e outros de elevada estirpe.
Quanto aos supostos criminosos exilados, houve por exemplo uma menina de dez anos, duvidosamente acusada de ter matado uma criança! Aos grandes malfeitores destinava-se a forca, ou decepava-se-lhes algum membro ou parte dele; uns anos mais tarde, eram mandados para S. Tomé, o pior dos desterros. Estas penas eram consideradas tão rigorosas que os donatários, ou os capitães que os representavam, não tinham o direito de aplicá-las, apesar de lhes ser atribuído o poder de fazer justiça.
Entre os povoadores naturalmente que se contavam muitos pobres também, destinados a arrotear, lavrar, semear e colher, para que houvesse abundância para todos, como cedo começou a haver. Mas provavelmente terão sido aqui menos pobres do que eram no Reino.”
“Tenho saudade desses impérios, que têm quase a idade do povoamento da ilha. E que por isso mantêm a memória de uma receita culinária de antes da chegada das especiarias orientais. A carne, cortada em grandes pedaços, é temperada apenas com sal e cozida durante várias horas. Depois, com o caldo ainda meio fervendo, põe-se-lhe dentro hortelã e endro. E assim se faz a carne mais saborosa de quantas já provei até hoje! Será só saudade?”
“Uma das recordações mais fortes dos meus impérios de Santa Maria são os foliões. No aspecto, em pouco diferem dos companheiros da equipagem, com o lenço colorido à volta do pescoço. Um toca o tambor e outro os ferrinhos ou uns minúsculos címbalos, indo ao meio o porta-bandeira. Eles merecem todas as atenções, nada acontece sem a sua presença antes do dia da função e, durante esta, de manhã até à noite ouve-se aquela toada mourisca que vão como que ronronando sempre. De nada serve aclarar-lhes a voz de pouco a pouco com gemadas em vinho e açúcar, servidas numa tigela. É mesmo assim a tradição, só se percebe de quando em quando um “Senhor” ou um “imperador”, mas pouco mais. Nem é preciso. A presença da folia é fascinante. Eu era capaz de ficar horas seguidas a olhar para os três foliões, a ouvi-los sem os entender, e mesmo assim nunca me cansava.”
“Nesta ilha a paisagem é como que um resumo da geografia universal. Será difícil encontrar outro pedaço da Terra que, em menos de cem km2, seja tão variado.”
“Até as chaminés mais antigas não se erguem muito acima dos telhados. As redondas vão um pouco mais alto, na sua elegância de navio a vapor. E pensa-se que foram brasileiros de torna-viagem que, para a sua construção, se inspiraram nas chaminés dos transatlânticos que os traziam de novo à ilha. Por isso lhes chamam chaminés de vapor. Em Santana, no meu tempo, haveria apenas umas três ou quatro. O que quer dizer que todas as outras casas seriam provavelmente ainda do século XIX ou princípios do XX, mantendo as chaminés de mãos-postas, como que pedindo aos Céus a bênção para o lar, o forno e o fumeiro.
Essas chaminés “de vapor “ provocaram uma interpretação errada que ainda hoje persiste, mesmo entre pessoas cultas. Bastaria saber a época a que pertencem para se pôr de parte a apressada tese. Por causa da sua ligeira parecença com as do Algarve e do Alentejo, houve quem as visse como herança das gentes do Sul do Reino. Coincidência somente.”
” Esta praia merece que a felicidade a contemple. Tão bela é que Luís Teixeira lhe chamou “Plaia Hermosa, no castelhano arcaico que consta em todo o mapa que fez dos Açores em 1584.
Que ela é formosa percebe-se logo à primeira vista… Desde 1986 a Praia deixou de pertencer apenas aos marienses. O Festival Maré de Agosto transformou-a em património açoriano e nacional, tornou-a conhecida um pouco por quase todo o Mundo”

“A cor branca dessas casas arquitecturais sempre se deveu à cal da própria ilha, sendo os seu fornos uma presença frequente na paisagem. Mas o calcário e a abundância de fósseis marinhos provocaram nos visitantes apressados uma interpretação errada. Até em livros de estudo chegou a constar que Santa Maria não era de origem vulcânica como as outras ilhas dos Açores. Puro engano, como sabes. O que acontece é que ela é de formação muito mais antiga. A sua plataforma esteve submersa durante quatro milhões de anos.”
“Muita gente da que procurou uma vida decente em Santa Maria não conseguiu encontrá-la. E a riqueza que se passeava de um lado para o outro do Atlântico passou lá um dia mais opulenta ainda. 26 de Outubro de 1958. O primeiro voo intercontinental de um Boeing 707 da Pan American. Metade da ilha foi apreciar o colosso que vinha destronar os Clipper e os Constellation. Ficámos todos maravilhados. Ninguém se apercebeu de que o gigante a jacto anunciava o princípio do fim da importância da ilha como ponto de ligação entre dois mundos. Dos mais de treze mil habitantes, a maior parte dos que não eram de lá foram voltando para as suas terras. E foi igualmente o descalabro da emigração, até aos muito menos que seis mil de agora.”

Terminei as minhas crónicas (cerca de 200) da melhor forma, citando o livro “Santa Maria a Ilha-Mãe” do Escritor, de coração mariense como o meu, Daniel de Sá. A minha homenagem ao escritor de quem tanto gosto, à Ilha, aos homens que a descobriram, a povoaram, a construíram, cá vivem, a amam.

Foi um passo difícil de dar o ter começado a “cronicar” como digo do que escrevo, o “vício” ficou e certamente continuarei a escrever sobre a Ilha, a minha Ilha: Santa Maria, no meu blog Mulheres de Atenas criado, exactamente, para as guardar.

Forte abraço mariense a todos, aos que gostam e aos que não gostam de ouvir, mas mesmo assim me ouvem

Ponta Delgada, Rua do Calhau, 19

Ana Loura

17 de julho de 2008

Cão de carroça

Esta estóriazinha é dedicada ao JL que me contou o tema base há anos, à minha irmã Branca que protestou há dias por ter vindo aqui e não encontrar nada de novo e a uma pessoa de quem gosto MUITO e com quem partilho o que posso partilhar da minha vida. Adorei ter escrito estas linhas.


imagem tirada da net, uma carroça sem cão
Cão de carroça

Ainda se vêem pelas estradas de S. Miguel carroças puxadas por cavalos ou mulas onde pequenos lavradores (os grandes já utilizam tractores ou camiões) transportam as bilhas com o leite do pasto aos postos de recolha das fábricas. É raro não se verem por baixo das carroças caminhar pelo menos um cão de fila que de vez em quando sai do seu lugar para dar uma volta, alçar a perna contra uma das árvores da berma da estrada, cumprimentar o companheiro que guarda um dos pastos por onde passa ou apenas para passear sem ter como céu o fundo da carroça. São chamados Cães de carroça. Não consta que algum aquando das suas saídas higiénicas ou sociais não tenha voltado para debaixo da carroça que lhe servia de céu pelo que se construiu o mito de que “cão de carroça volta sempre”.

Contou-me um amigo há anos que um colega de trabalho dava as suas “facadinhas no casamento”, “pulava a cerca”, tinha os seus devaneios amorosos extra conjugais. A esposa traída, que acabava quase sempre por saber que “andava moira na costa” pois o marido “andava num sino”, a pentear o cabelo pela terceira vez pela manhã, a dar-lhe o segundo beijo de despedida com ar ausente e sorriso aparvalhado nessas alturas de paixão efémera mas infinita enquanto durava, dizia a quem lhe vinha bichanar, “na melhor das intenções” que fulano, amigo de sicrano tinha visto o infiel marido enlevado na companhia da ruiva flamejante ou da morena escultural no restaurante tal ou no bar da moda, ou quando no cabeleireiro a manicur entre limadela de unha e pincelada de verniz e a meia voz, o suficiente para que todo o salão ouvisse, comentava que aquela amiga do peito da esposa naquele mesmo dia de manhã tinha confidenciado à menina que chegava os rolos à outra menina que lhe fazia a mise que o marido da sua melhor amiga, e toda a gente sabia a quem ela se referia, estava na véspera naquele recanto da Praia do Pópulo de mãozinha dada com a cunhada do Dr. Antonino (nome fictício, claro). A esposa sorria e dizia: “o meu Armando (nome fictício, claro) é cão de carroça, dá as suas voltinhas mas volta sempre”. Um dia Armando não voltou! Encontrou outra “carroça”mais jovem, pele nacarada e macia, sorriso meigo, gargalhada espontânea sempre que ele contava uma tontice qualquer, a servir-lhe de céu estrelado e azul com cânticos de anjos acompanhados de harpas harmoniosas e sininhos celestiais, mesa farta de pitéus refinadíssimos e cascatas do melhor champagne francês. Diz quem sabe que Armando (nome fictício, claro) “esgalhava” ao volante do veículo que pilotava para que o dia de trabalho terminasse rápido e poder aninhar-se debaixo da sua nova carroça com um sorriso ainda aparvalhado mas feliz.

A esposa traída continuará à espera que se cumpra o mito e o seu "cão de carroça " volte. Espero que bem sentada numa boa almofada.

30 de junho de 2008

Cidadania segundo Laborinho Lúcio
















Bom dia!

No último Sábado (28 de Julho) pelas 11:30 tomei conhecimento, por mero acaso, de que a AJISM iria levar a cabo às 15 horas na igreja da Nossa Senhora das Vitórias uma conferência sobre cidadania. Lá fiquei eu indignada por ser obra do acaso o ter tomado conhecimento e ainda por cima por ter, também, sabido que tinham sido distribuídos convites formais a algumas pessoas e colocados cartazes nos locais habituais, que pelos vistos não são os que eu frequento. Mas bendito acaso que me fez ter conhecimento do que se iria realizar pois o que se passou era imperdível e só lamento que a sala não tivesse sido pequena e não estivesse Santa Maria em peso a ouvir falar sobre um tema que interessa a todos. Mas vou tentar fazer a história que sei: A AJISM elaborou há meses um inquérito onde, em resumo, colhia elementos que espelhassem a participação dos inquiridos nas acções relacionadas com o exercício da cidadania, ou seja, se votam, se reclamam quando mal atendidos, se participam em acções de carácter cívico. O que aconteceu no Sábado foi o tirar de conclusões desse inquérito pelo Sociólogo da Universidade dos Açores Dr. Álvaro Borralho que disse que em Santa Maria acontece como no todo nacional em que a “Cidadania é difusa”, há uma fraca participação dos cidadãos embora a maioria dos inquiridos, 76% saiba o que é cidadania mas falta “convicção à sua prática” e deixam nas mãos dos outros essa prática pois achando que se devendo reclamar e reivindicar direitos raramente o fazem, que há um sentimento colectivo de que a participação faz falta, mas por outro lado é notório o aumento da abstenção nos actos eleitorais que em Santa Maria é a mais elevada do arquipélago. Concluiu também que das três vertentes da cidadania, social, política e económica, aquela que é mais reconhecida é a política. Deixou-nos o Dr. Borralho uma frase que é para ser pensada, e aplicada em todas as vertentes “A participação leva à participação”

A “estrela” da tarde, aquela que, parafraseando Daniel Gonçalves fez ser dia de Natal em pleno Junho (para mim foi Natal, Carnaval e quase Páscoa) foi o Senhor Juiz Conselheiro, ex Ministro da República para os Açores Dr. Laborinho Lúcio. Foi para mim um privilégio ter estado diante de alguém que tanto admiro pela lucidez e brilhantismo de discurso. Como costumo dizer só perdeu quem não esteve presente. Foi tanto e tão importante o que foi dito que resumir em poucas linhas é um trabalho difícil e deixar-vos frases desgarradas, fora do contexto pode ser um incorrecção. Mas vou deixar-vos algumas que de per si contêm conceitos fundamentais: A questão fulcral da apresentação de Laborinho Lúcio centrou-se na “Cidadania activa”(Uma ilha a pensar) frase de toque do cartaz da AJISM que eu apenas, com pena, vi nas Vitórias
Depois de ter atirado à queima roupa os dados estatísticos que todos nós conhecemos mas teimamos em esconder com a peneira de que apenas 1,2% do rendimento mundial está nas mão de 3 mil milhões de seres humanos e que 80% do rendimento mundial está na mão de apenas”meia dúzia” de privilegiados , Laborinho Lúcio afirma:
- A exclusão é uma limitação ao acesso à cidadania”
- A exclusão retira o direito a desenvolver as capacidades que potenciam a intervenção
- Só sou cidadão quando projecto a cidadania no outro
- A pobreza é violação dos direitos humanos
- Substituir o pensamento único pelo pensamento crítico
- A escola tem que formar, também, para a desobediência crítica
- É preciso restaurar uma utopia da política de verdade e respeito pelo valor do outro e reclamar profundas transformações políticas
- Pensar globalmente e agir local
- Que o nosso discurso seja de coesão junto dos que necessitam
- A cidadania activa coloca a tónica no lado da ética e da responsabilidade

Conclusão, tirada por mim, claro:
Fundamental olharmos à nossa volta, a nossa rua, o nosso bairro, a nossa ilha e colocarmo-nos no lugar do outro que precisa e sermos activamente solidários, empenharmo-nos nas associações, fazermos trabalho voluntário, participarmos nas instituições, não nos demitirmos dos nossos direitos de exprimirmos as nossas opiniões, do nosso direito/obrigação ao voto.

E acrescento: a cidadania deveria ser aprendida, fundamentalmente, em casa pois é aí que se forma a essência do ser humano. Devemos ensinar os nossos filhos a partilhar entre si, a respeitarem os que vivem na mesma casa, o respeitarem os que vivem na mesma rua a serem com eles solidários e intervenientes. O consumo e o acesso a bens de consumo não essencial de uma forma cada vez mais fácil permitem que numa casa onde há três crianças cada uma tenha a sua televisão, a sua consola de jogos pelo que deixou de ser necessária a partilha dos objectos. Temos de repensar com urgência a forma como educamos os nossos filhos, não nos podemos demitir dessa maneira de exercermos cidadania pois o primeiro outro em quem devemos de projectar a nossa cidadania são os nossos filhos.

Não quero deixar de referir a presença prestigiante do Senhor Juiz Conselheiro, Representante da República para os Açores Dr. José Mesquita, que patrocinou este evento e na introdução que fez referiu Daniel de Sá, escritor açoriano cuja vivência durante infância e juventude em Santa Maria fez um apaixonado da Ilha-Mãe título do seu livro onde descreve com sabor a sopas de Império e biscoitos de orelha, cheiro a poejo, macela, murta e acácias essa vivência na nossa ilha.

Como acabaram de ouvir/ler, esta foi uma tarde imperdível.

Abraços marienses

Santa Maria, 30 de Junho de 2008

Ana Loura

2 de junho de 2008

Estou em casa




Bom dia!



Há quem diga que nunca devemos trilhar caminhos que já trilhámos, mesmo que tenhamos sido felizes. Pois cá estou eu a trilhar de novo os caminhos da Ilha. Uma vez ilhéu toda a vida ilhéu. Não foi fácil voltar, virar costas às coisas de que eu lá gostava, deixar os meus Pais, uma das razões que me tinham feito partir. De qualquer forma o meu ir foi um ir a prazo, apenas regressei um pouco antes do que previa. Vim bem, vim tranquila, vim feliz. Gosto da ilha e como qualquer ilhéu a minha vida é feita de partidas e chegadas. Esta foi mais uma. Agora, é preciso colocar no sítio as coisas que levei e trouxe e algumas que apenas trouxe; retomar algumas das actividades que de alguma forma deixei em suspenso, embora tenha ao longo deste tempo mantido a fervilhar tudo o que fazia: sempre que vim ensaiei no grupo coral, raramente falhei na escrita das crónicas, apesar de ao longe, acompanhei a actividade política dos meus camaradas de partido e companheiros da CDU; fui pedindo notícias do que era feito na ilha, fui tendo conhecimento das novidades através de conversas telefónicas com amigos e através do blog do Marco Coelho. A bem da verdade quase não saí de cá.



Já cheguei fez esta madrugada uma semana, mas logo na Terça fui para S Miguel para uma acção de formação pois a única mudança de fundo na minha vida neste giro-flé foi ter deixado de exercer um cargo de Assessora no trabalho e ter passado a executar funções que chamamos de TTA “de linha”, ou seja a reparar e a manter os equipamentos usados para que os aviões aterrem em segurança no nosso aeroporto e os usados para controlar o espaço aéreo do Atlântico Norte, área sobe a responsabilidade de Santa Maria e que pela decisão da Assembleia da República, luta em que o Partido Comunista teve um papel fundamental, assim se manteve.



Tendo chegado Sábado à noite logo me quis inteirar se haveria no Domingo algum Império. Como vos contei, no dia de Pentecostes preparei sopas com pão que tinha levado de cá. Pão, endro e hortelã, carne comprada lá, para de certa forma e para além da Eucaristia, louvar o Espírito e celebrar uma das nossas mais arreigadas tradições. Mas Império mesmo é na copeira. E ontem, a meio da tarde, subi os Picos e pus-me na bicha, que felizmente não era muito grande e entrei na segunda mesa. Os Impérios para além do seu principal objectivo do “pagamento” de promessas (como se o Espírito cobrasse as bênçãos que dá…mas isso é tema sério para reflexão obrigatória noutro momento), como dizia, para além da componente de “pagamento” de promessas, o Império tem uma função social indiscutível pois é na bicha que encontramos muitas das pessoas que raramente veríamos não fossem os Impérios. E eu vi muita gente que já não via há muito tempo, abracei, conversei, ri-me com as estórias contadas. Acho que foi na bicha do Império que eu tive a certeza de que ESTOU EM CASA.



Abraços marienses

Santa Maria, 2 de Junho de 2008

Ana Loura