20 de dezembro de 2008

Santa Maria não vale um caracol
















































Santa Maria não vale um caracol, Santa Maria vale 70 espécies diferentes de caracóis, cerca de 20 a 25 espécies endémicas e uma mão bem cheia de espécies únicas no mundo! Diz o Professor Frias Martins que isto se deve à avançada idade geológica da nossa pequena ilha. Pequena mas recheadinha de coisas lindas que só quem olha com olhos de ver consegue de facto ver e para isso muitas vezes é preciso aproximar os olhos do chão que nós e as nossas vacas pisamos.

Frias Martins, cientista da Universidade dos Açores, e David James Harris, este, investigador chefe de um projecto próprio o Integrated Biology and evolution, para além de integrar o Centro de Investigação de Biodiversidade e Recursos genéticos da Universidade do Porto situado no pólo de Vairão, Vila do Conde (as minhas duas terras ligadas pela ciência, pela Biologia, pela investigação e eu impante de orgulho), desenvolvem, neste momento projectos de recolha de especímenes para a investigação na área dos ADN para identificação e catalogação das espécies raras existentes apenas na nossa ilha em paralelo com um outro projecto na área da evolução biológica, este projecto mais recente. A Universidade dos Açores mantém há anos parceria de investigação com Centro de investigação e biodiversidade e recursos genéticos da Universidade do Porto, parceria essa, que foi nos anos 90 oficializada. Diz Frias Martins que Santa Maria “tem um potencial científico que a torna especial” precisamente pela sua idade e preservação (pelo menos por enquanto no que se refere à preservação, acrescento eu).

Foi uma manhã inesquecível que passei com estes dois cientistas, em que os vi de bruços rostos a centímetros da terra, a esgravatar cuidadosamente à cata de caracoizinhos minúsculos. Emocionei-me quando me colocaram na mão um exemplar de uma espécie de caracol existente apenas em Santa Maria, única no mundo!!!quando brinquei com uma “meia lesma” que desfilou sobre uma folha de conteira enquanto a fotografei, quando vi três ovinhos numa cavidade de uma pedrinha de basalto. Senti-me pequenina naquele mundo minúsculo.

Obrigada Professor Frias Martins, obrigada Doutor Harris pela vossa paciência em se deixarem acompanhar por mim e obrigada pelas respostas à minha curiosidade. Valeu a pena acordar cedo

Santa Maria não vale um caracol, um corninho de um caracol, isso sim, para a RTP AÇORES, a televisão pública Açoriana, que não achou importante que fosse feita reportagem, notícia, sobre este importante trabalho. Bem dizia o outro: “Um suspiro no Faial e o arquipélago todo tem que gramar a notícia…”


Santa Maria 14 de Dezembro de 2008
















12 de dezembro de 2008

Sou quem sou


Não tenho qualquer dúvida de que sou o que sou principalmente porque o meu caminho se cruzou com caminhos de outras pessoas. Algumas delas contribuíram muito para que eu seja quem sou. Já tenho falado, escrito, sobre algumas. Hoje vou falar um pouco de uma quase mão cheia e deixar aqui registadas algumas fotografias que tirei este fim-de-semana.

Em casa dos meus Pais fomos educados a sermos solidários, o meu Pai pessoa honesta, a minha Mãe também uma grande mulher que sempre retirava do que havia em casa para dar a quem batia à porta em busca de uma “esmola”, as nossas roupas iam, quando deixavam de nos servir para o corpo de quem tinha menos do que nós, (naquele tempo os mais novos vestiam as roupas que deixavam de servir aos mais velhos, os colarinhos eram virados, os sapatos, chancas e botas levavam meias solas pela mão do meu Pai ou pela mão do falecido Senhor Varela), à nossa mesa sentavam-se colegas nossos que situações de vida tornavam a vida mais dura (um dia o Alexandre chega a casa à hora do almoço e traz ao lado um colega, bate à porta, a minha Mãe vai abrir e o Alexandre diz: Mãe o Manuel vem cá almoçar porque o Pai dele foi preso. O Manuel almoçou lá nesse dia e todos os dias até o pai sair da prisão depois todos os Domingos durante muitos anos. Ele e o Vidal, outro amigo, filho de pescadores, alguns irmãos. O meu Pai diz: Na nossa casa o que havia sempre deu para os outros.

A minha mãe conta que um dia ia na “Ponte” e parou um carro ao pé dela, sai uma senhora que a abraça e pergunta: A Dona Margarida não me conhece? Eu matei muitas vezes a fome em sua casa há muitos anos. E contou que estava imigrada há alguns anos num dos países europeus para onde vão muitos dos filhos das terras do Ave, filhos de tecelães das fábricas de têxteis ou de operários das fábricas da sardinha miseravelmente pagos e cujo trabalho quase escravo enriqueceu os senhores que eu via passar de BMW e Mazerattis quando também passava na Ponde fizesse sol ou chuva para apanhar a camioneta em frente do mercado para ir para o Liceu da Póvoa.

Eu naquela altura não entendi muito bem como o Senhor Abel, homem trabalhador, honesto e respeitado tinha sido preso, não entendi porquê quando fomos no passeio da paróquia e passamos em Paços de Ferreira não deixaram gente da nossa terra ir ver e entregar ao Abel um pacotinho com roupa e alguns mimos que a Zeza, sua esposa, tinha mandado.

Fui crescendo e vendo que de vez em quando o rádio que estava na sala não tocava música alto e em vez disso tinha umas vozes diferentes e o som era abaixado e em cima do rádio era posto um púcaro de alumínio com água, naquela altura toda a gente se calava pois o meu pai queria ouvir essa voz, era importante, para ele ouvir. Cresci, mais ainda, e chegou o Maio de 69 e a minha irmã Guida em Coimbra e nós preocupados. Conheci uma família de amigos da minha irmã. Que família linda, os Lopes.
O pai agricultor, mas um agricultor diferente dos que havia nessa época. Respirava-se um ambiente diferente naquela quinta e eu gostava de lá ir, era tudo tão lindo, tudo tão bom! Fui entendendo os porquês de muita coisa. Entendi porque a minha Mãe chorava a ausência dos meus irmãos um em Angola outro em Moçambique. Fui entendendo que como diria mais tarde Fausto “quem conquista sempre rouba” e que a guerra no Ultramar era uma realidade que trouxe o Alexandre com terrores nocturnos, que lhe cortou a vida em antes e depois, num antes de estudos em Direito, Conservatório e quem sabe um pianista de renome e um depois com um emprego, sem o curso de Direito (realizou meio sonho fazendo-se Solicitador) mas com o sonho de pianista para sempre adiado e os terrores nocturnos, esses sempre presentes, o acordar a transpirar e aos gritos…Será que Salazar alguma vez acordou a transpirar e aos gritos??

E eu cresci, sim, a interrogar-me e a ter a certeza que a vida em Portugal tinha que mudar, que a reforma do Ensino não podia ser aquela que Veiga Simão, o Governo queriam. Nós estudantes, os professores todos tínhamos direito a discutir a Reforma, a dar opiniões. E reuníamos, clandestinos, a falar baixinho na casa de uns e de outros (todos confiávamos em todos, era preciso confiar) Um dia, o irmão de um amigo da minha irmã aborda-me e diz-me: Ana é altura de ires mais longe, de estares organizada. Queres entrar para a UEC? Eu mal sabia o que era a UEC, mas eu intuía que a Guida estava lá e que era importante. Meses depois conheci o
António Vilarigues, meu controleiro, aquele com me encontrava à hora exacta na Corujeira, que me trazia um montinho de Avantes e me falava baixinho com um sorriso sobre a guerra, sobre as lutas dos operários da marinha Grande, dos ferroviários, têxteis do Fundão, têxteis do vale do Ave, falava que um dia a exploração do homem pelo homem iria acabar, que era preciso lutar para que isso acontecesse. E havia os comunicados que era preciso distribuir no Instituto e o contínuo Sr. Fernando a correr atrás de mim e eu in-extremis a lançá-los pelo ar nas escadas pois não poderia ser apanhada com eles na mão e o homem, da PIDE, dizia com um ar bonzinho, parece impossível, e logo a menina que está a receber as sebentas de graça…

Vou estudar para o Porto em plena campanha eleitoral para a farsa que o Regime preparava para o “inglês” da opinião internacional ver que sim senhor a “Primavera marcelista” já não era a ditadura fascistas (mas havia quem não se deixasse enganar com as papas e bolos) A oposição aproveitava até ao último segundo, até à última força para esclarecer e para mobilizar, uma fantástica campanha eleitoral foi feita com Virgínia Moura,
Margarida Tengarrinha, Óscar Lopes e tantos outros. Um comício memorável no Coliseu do Porto!! Esse tempo foi tempo de Modestos, de TEP, de Lysos de MJT, da UNEP.

Numa Quinta-Feira, cedinho, toca o telefone. A Isabel anuncia-me o dia em que Portugal amanhece livre. Ainda sem sabermos bem o que se estaria a passar. Mas dias lindos de festa, de esperança…25 de Abril sempre, fascismo nunca mais! O Povo unido jamais será vencido!!!!
E veio o tempo das RGAs, da EUC já em liberdade, das Associações de estudantes, da Sede em Aníbal Cunha onde um dia

Carlos Costa me faz telefonista por uns meses e onde Ângelo Veloso me dá um dia um merecido raspanete porque a chamada que ele precisava ainda não tinha sido estabelecida. Vivíamos à velocidade da luz entre as aulas, a associação, a UEC e o partido.

Hoje, trinta e quatro anos passados venho ao Congresso que nunca será mais um e encontro o Agostinho e Teresa Lopes, o António Vilarigues, Margarida Tengarrinha, Carlos Costa e olho-os com saudade, sim, mas certa de que todos eles me fizeram, juntamente com alguns outros, (Irmão Silêncio, Rogério, Maria João, Victor, Natalinha…) ser muito do que sou. Eu acredito numa sociedade sem exploradores nem explorados, que a Paz é possível.

Diz uma das canções que cantamos na igreja. “Pela Graça de Deus eu sou quem sou” e eu entendo que esta Graça está em o meu caminho se ter cruzado com o caminho de todas estas pessoas e, principalmente, ter nascido na família em que nasci.

25 de novembro de 2008

Alcides

Ando há algum tempo, diria anos mesmo, para escrever uma crónica sobre uma pessoa que conheci no meu primeiro dia nos Açores. De certa forma já lhe fiz algumas referências nalguns textos. Agora que não há crónicas, o ASAS tirou-me essa possibilidade, aqui, escondida por detrás do turbilhão internético ficará a minha homenagem a esse amigo no dia em que estranhamente a vida o fez presente e ao mesmo tempo ausente. Estou no continente, na casa de Árvore onde acumulei algumas coisas durante os dois anos em que aqui vivi, Baluartes, revistas de fotografia e revistas açorianas que comprei nas minhas idas e vindas. Como no meio disso tudo que irei conservar está algum lixo, hoje estive a fazer uma escolha. Passou-me pelas mãos a revista Açorianíssima de Agosto de 2008 que comprei apenas porque na capa tem uma foto de Alcides e no interior uma entrevista em ocasião do quinquagésimo aniversário da sua actividade na restauração. Antes de a pousar no monte das coisas a serem guardadas o meu gesto foi interrompido por um pensamento: gostava de ter esta revista autografada, vou levá-la. E a crónica? Um dia destes escrevo-a. Pousei a revista, mas senti um aperto no coração.

Como já referi algumas vezes eu vim para os Açores em meados de Outubro de 1980 e passei em S. Miguel rumo ao Faial para leccionar na Escola Manuel de Arriaga. Nessa altura ainda não havia voos directos do continente para o Faial pelo que na minha viagem iniciada no Porto, Aeroporto de Pedras Rubras, mais tarde baptizado de Sá Carneiro (enfim, decisão algo polémica), escalei o Aeroporto da Portela rumo a S. Miguel onde cheguei a um Sábado. Pernoitei na Residencial América pois a minha viagem continuaria no Domingo à tarde. Acordei um pouco tarde, pois tinha passado mal na viagem, mal de que sempre sofri e que só de alguns anos a esta parte se atenuou (aliás tinha aterrado em Lisboa já em péssimo estado), mas acordei com fome. Perguntei na recepção onde poderia almoçar e responderam-me que almoçar ao Domingo em Ponta Delgada era complicado, havia poucos restaurantes abertos (nisso Ponta Delgadaemudou pouco) mas que na rua paralela havia um, o Alcides. Iniciei nesse dia o meu “namoro” com o Alcides, o restaurante, claro. Comi um bife e um pudim de mel que me ficaram na memória. Durante a refeição um senhor alto e muito simpático andava de mesa em mesa a cumprimentar os clientes e notei que falava com alguns como se os conhecesse desde sempre.

Em 16 de Março de 1981 fiz a viagem no sentido inverso só que em vez de rumar ao Porto, rumei a Santa Maria. Voltei a dormir na Residencial América e nesse dia jantei no Alcides. O bife, o pudim de mel e muita simpatia. Em Santa Maria casei, nasceram os meus filhos e sempre que íamos a S Miguel, geralmente para consultas da especialidades, comíamos, pelo menos, uma refeição no Alcides: bife, pudim de mel e muita simpatia. Aquele senhor alto e simpático começou a parar mais tempo na nossa mesa, muitas vezes ia receber-nos à porta, beijava os meus filhos, abraçava-me e tratava-nos por tu, tornou-se um amigo. Ainda me lembro da minha Aninhas sentada num dos bancos do balcão quando o restaurante ainda tinha balcão.

O Senhor Alcides há alguns anos começou a sofrer de Diabetes, a saúde degradou-se, amputou uma perna… Mas não deixou de sonhar de fazer projectos comprou a casa ao lado de baixo do restaurante e começou a fazer obras para a sua ampliação. Dizia-me: “posso não ver concluída a obra, mas é para os meus filhos”

Quando passei em S Miguel na Sexta feira passada eu e a Aninhas fomos almoçar ao Alcides, não vimos o Senhor, estranhamos mas não perguntamos por ele como sempre fazíamos quando não o víamos na sua cadeira de rodas a almoçar com a esposa e algum dos filhos. O bife estava bom como há muito tempo não comia. Há algum tempo troquei o pudim de mel pela mousse de chocolate divinal. Saí de lá satisfeita mas sentindo que me faltava qualquer coisa.

Hoje, ao fim da tarde telefonou-me uma amiga a dar a notícia que o meu querido Amigo Senhor Alcides havia falecido. Estou triste. Estou longe, senão amanhã estaria a despedir-me dele, assim estarão apenas flores a dizerem que o meu coração está lá.


Que descanse em paz, bem merece!

19 de novembro de 2008

Quando for grande...


Em determinado mural está escrito: “O meu sonho de criança: Quando for grande quero trabalhar na ANA (agora ANA e NAV)”

Centenas de crianças ao longo destes cinquenta anos acalentaram este sonho. Umas realizaram-no, outras nem por isso.

A ANA, até há muito poucos anos era uma empresa especial, diferente, em Santa Maria. Comparável, apenas, com a Base das Lajes na Praia da Vitória, Ilha Terceira. A ANA era para muitos a diferença entre ter brinquedos no Natal entregues em festa realizada no Atlântida Cine com filme de desenhos animados, palhaços e não ter nada. Era a escola do Aeroporto onde cresciam e aprendiam as crianças que enchiam os jardins interiores dos Bairros de Santa Bárbara, São Lourenço, as ruas dos bairros das companhias, dos bairros das elites (de pedra e cal, estes), brincavam no Parque infantil. O Aeroporto de Santa Maria era uma realidade fora de qualquer realidade. Crescer no aeroporto era crescer num mundo diferente dentro da Ilha, um mundo onde havia padaria, cinema, ginásio, cantina, o externato, a igreja, as Oficinas Gerais, que fervilhavam de actividade e lá se fazia desde mobílias para as casa até cinzeiros para o ASAS. A pouco e pouco tudo se foi transformando mas é ainda sentimento dos nossos filhos, dos que cresceram no Aeroporto e estão na fase de iniciarem as suas vidas profissionais de que o sonho de criança se realize e entrem para os quadros da ANA. Alguns, poucos conseguem, mas a maioria não… A ANA, por força de muitas circunstâncias já não é o que era, mas o sonho ainda existe…só que são muito poucos os privilegiados que o realizam. Mesmo assim fica a nostalgia de uma coisa que temos a certeza tem o termo certo: O Aeroporto de Santa Maria.
Abraço mariense