3 de fevereiro de 2009

Criatura de Deus- porcaria de feitio o meu (versão soft)



Porcaria de feitio o meu. Quem me dera não ver com o coração, não sentir, ser como os demais... Saí de casa para tratar de vários assuntos, um deles encomendar biscoitos de orelha típicos de cá numa senhora que ainda os fará à moda tradicional. Quase a chegar à casa vejo um gato com aspecto de morto e pensei: mais um sacana que bateu e andou...tadinho do bichinho...mas o bicho não estava morto, a pontinha da cauda mexeu...pronto, Ana, tás lixada...estacionei como pude e...o bicho respirava...isto era quase meio dia. O marido da tal semhora biscoiteira de mão cheia sai da casa e diz q a pobre ciatura de Deus, tanto como eu, estaria alí desde as seis horas da madrugada... que merda de seres humanos, que indiferença, que falta de humanidade, da caridade que nos irmana...Tinha chovido torrencialmente minutos atrás e o bicho está ensopado e treme e tem espasmos...ligo ao veterinário "Rui, onde está? Estou nos Serviços (de Desenvolvimento Agrário) Rui, estou na Rua da Lomba e tem aqui um gato que foi atropelado. Rui, pode vir? "Sim, a Ana está com o seu carro? Sim, Rui. Venha, por favor". "Rameira que deu à luz" essa gente indiferente...pego no bicho e ponho-o em cima da bagageira, está sol e é preciso que o bicho aqueça...não, ele não foi atropelado, ele foi envenenado, os espasmos são indício...ele estava alí pelo menos desde as 6 da madrugada... O Dr Rui chega e confirma: envenenamento...Agora o bicho está aqui em casa entre a vida e a morte...mais perto da morte. Quem me dera ser normal e passar adiante diante do sofrimento de um animal que é tanto como eu uma criatura de Deus.

Criatura de Deus, sim. Volto a colocar aqui a frase de Joseph Ratzinger- Papa Bento XVI "Os animais são, também, criaturas de Deus e embora não tenham a mesma relação directa com Deus como o homem tem, são criaturas da Sua vontade que nós devemos respeitar como companheiros na Criação"

18 de janeiro de 2009

Rigor jornalistico





Nem sempre é fácil chegarmos ao sentido de um texto. Por vezes é preciso ler e reler cada frase, cada palavra e mesmo assim muitas vezes chegamos ao fim com dúvidas sobre qual seria a mensagem que o autor gostaria que ficasse na mente de cada leitor. Aconteceu-me isso hoje com dois textos e chego a pensar que ando a ficar com falta de inteligência ou de outra coisa qualquer. Como um deles terá, ou não, a ver com Santa Maria aqui deixo as minhas inquietações.
Contracapa do jornal Expresso das nove na sua edição impressa do dia 09 de Janeiro de 2009. Título da notícia: 1,8 milhões de incentivos para os Açores em 2009. Depois de ler o título os meus olhos sobem no papel e lêem a frase por debaixo da imagem: "O Governo Regional aprovou a atribuição de incentivos não reembolsáveis a quatro projectos de investimento privado a executar em S. Miguel e na Terceira". E penso, está tudo estragado…vamos ficar com um campo de golfe de eficácia duvidosa, estes milhões são para as ilhas mais desenvolvidas, as da Coesão têm outro saco, oxalá a gente saiba qual é. Mas decido ler a notícia e para minha surpresa, pois estava convencida de que Santa Maria fazia parte do outro tla rol da Coesão, lá aparece o seu nome e aqui o sublinhado é meu: "A concessão de incentivos não reembolsáveis, no valor de 1,8 milhões de euros, por parte do Governo Regional dos Açores, é feita no âmbito do programa SIDER – Sistema de Incentivos para o Desenvolvimento Regional dos Açores – integrado no Subsistema de Apoio ao Desenvolvimento Estratégico. O montante será atribuído a quatro projectos de investimento privado, os quais serão postos em prática nas ilhas de S. Miguel e Santa Maria". E fico confusa, afinal fazemos ou não parte do rol das ilhas a quem vai ser DADO parte dos 1,8 milhões? Com o coração saltitante de alegria por imaginar projectos privados aqui na Ilha merecedores de uns troquitos de incentivos não reembolsáveis fico gélida de surpresa, má surpresa, claro quando verifico que no rol dos projectos não consta nenhum de Santa Maria. Fiquei a saber o que é o SIDER, mas fiquei também a saber que não sei nada do jornalismo que se faz por estas terras e do rigor do que é escrito e por nós lido e se podemos e quando podemos acreditar que o que lemos é escrito com rigor. Nesta notícia pouco ou muito pouco bate certo. E para o meu leitor confirmar o que digo aqui fica o link para a notícia online http://www.expressodasnove.pt/interiores.php?id=3216




Abraços marienses




Ana Loura

25 de dezembro de 2008

Feliz Natal, oh Jesus


Há muita solidão por esse mundo fora e gente que terá chorado amargamente ausências de afectos, de pessoas durante este dia. Será que Jesus Nasceu mesmo? Que estes dias, para além da festa, do consumo do supérfulo, de nos terem "roubado" o Presépio e o Menino Jesus e nos terem impingido um gordo barbudo, nos sirvam para nos interrogarmos (nós os Cristãos) se Jesus nasceu, de facto, nas nossas vidas.

De Miguel Torga

NATAL
Outro natal,
Outra comprida noite
De consoada
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.

22 de dezembro de 2008

Régio ou o tinteiro


Fez hoje 39 anos que morreu José Maria dos Reis Pereira, nome de Baptismo do Poeta José Régio. Eu estava a estender roupa no quintal, como sempre o rádio lá de casa estava ligada no programa clássico da então Emissora Nacional, seriam umas onze horas da manhã, a notícia de abertura do noticiário foi a da morte do homem que deu corpo ao poeta, homem que eu via a passar em longas conversas com Orlando Taipa, a formiga e o elefante como eu carinhosamente chamava ao duo, Régio, pequeno, Orlando Taipa alto, entroncado. Caminhavam lado a lado no passeio do outro lado da rua onde esperávamos as camionetas Linhares que nos transportavam ao Liceu da Póvoa mesmo em frente ao Mercado Municipal. Caminhavam lentamente, sem pressas parando amiúde. Nessa altura o meu Pai tinha-me oferecido o livro As encruzilhadas de Deus pelo meu aniversário, ele sabia da minha admiração por Régio pois no meio do montinho de livros que eu trazia da Gulbenkiam havia um dos da Velha casa, ou Davam grandes Passeios ao Domingo. Não contive umas quantas lágrimas. Um dos meus poetas falecera. Nessa altura eu não sabia, ainda, que os poetas são imortais, ficam sempre ao alcance de um gesto na estante dos que amamos ou eternamente em cima da mesa de cabeceira no meio das coisas que amanhecem e anoitecem connosco, o Livro das Horas, a foto dos filhos, a carta de há muitos anos dos Pais, as recordações que a vida fez apenas serem-no e não temos a coragem de arquivar.

A minha família foi ao funeral de José Maria dos Reis Pereira, homem que deu corpo ao Poeta José Régio. Levámos, cada um de nós, na mão uma camélia. Estes dias de enfeites natalícios olhei os ramos de camélias que enfeitam os arranjos e parei muitas vezes a pensar: está a fazer anos que peguei numa camélia e fui no imenso cortejo que subiu a calçada que vai da Meia Laranja à Correcção. Apenas se ouvia a cadência dos passos nas pedras da calçada.

Muitas vezes subi as escadas do Monte para ir a casa da Luísa, amiga do grupo das leituras que também fizeram muito que eu seja o que e quem sou, parei quase sempre no Cemitério e muitas vezes me sentei na pedra tumular de Reis Pereira. Ficava ali minutos, apenas ficava e…pensava como quem conversava com o Poeta.

Hoje, 39 anos depois, mesmo fisicamente longe daquele cemitério eu fiquei lá e pensei como quem conversa com o Poeta. E estrofes, quer da Carta de Amor, quer de “Em cima da minha mesa” me acompanharam no dia e eu, sem muitas respostas ao que me inquieta penso mesmo que se não fosse a Fé e a Esperança eu já teria bebido o tal tinteiro de tinta. Mas eu sei que melhores dias virão, tenho a certeza.

De José Régio:

Em cima da minha mesa
Da minha mesa de estudo
Mesa da minha tristeza -
Em que de noite e de dia
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo
A mim
Também
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!

À cabeceira do leito,
Dentro de um caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...
Ai minha Nossa Senhora,
Que se parece contigo,
E que tem ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que Tenho,
De menino pequenino!...

No fundo da minha mala,
Mesmo lá no fundo a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços - e nada leves!
- Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta.



Carta de Amor

Ouve-me!, se é que ainda
Me podes tolerar.
Neste papel rasgado
Das arestas da minh'alma,
Ai!, as absurdas intrigas
Que te quisera contar!
Ai os enredos,
Os medos,
E as lutas em que medito,
Quer dê, quer não dê por isso,
Sem descansar
Um momento...!
Quem sofre - pensa; e o tormento
Não é sofrer, é pensar.
O pensamento
Faz engolir o vómito de fel...
Ouve! se sou cruel
Neste papel queimado
Dos incêndios da minh'alma,
é de raiva de que embalde
Te procure dizer sem falsidade
Coisas que, ditas, já não são verdade...
E procuro eu dizê-las,
Ou procuro escondê-las?
E procuro eu dizer-tas,
Ou procuro a vaidade
De mas dizer, a mim, de modo que mas ouçam
Esses mesmos que desprezo,
E cujo louvor me é caro?
Não me acredites!
O que digo,
Antes ou depois, o peso;
E não!, não é a ti que me eu declaro!
Sei que me não entendes.
Sei que quanto melhor te revelar
O meu mundo profundo,
O fundo do meu mar,
Os limos do meu poço,
O antro que é só meu (sendo, apesar de tudo, nosso)
Menos me entenderás,
Tu..., - a minha metade!
Por isso me não és senão vaidade,
Meu amor!, meu pretexto
Deste miserável texto...
Vês como sou?
Mas sou pior do que isto.
Sabe que, se me acuso,
é só por vício antigo
De me lamber as mãos e agatanhar o peito,
De me exibir a Cristo!
Sabe que a meu respeito
Vou além de quanto digo.
Sabe que os males que ora uso,
Como quem usa
Cabeleira ou dentadura,
São a pintura
Que esconde os mais verdadeiros,
De outro teor...
E sabe que sou pior!:
Sabe (se é que o não sabes)
Que ao teu amor por mim foi que ganhei amor.
Que a ti..., sei lá se te amo.
Sei que me deixam sozinho
Ante o girar dos mundos e dos séculos;
Sei que um deserto é o meu caminho;
Sei que o silêncio
Me há-de sepultar em vida;
Sei que o pavor, a noite, o frio,
Serão jardim da minha ermida;
Sei que tenho dó de mim...
Fica tu sabendo assim,
Querida!,
Porque te chamo.
Mas amar-te?!
Não!, minha vida.
Não! Reduziram-me a isto:
Só a mim amo.
Ama-me tu, se podes,
Sem procurar compreender-me:
Poderias julgar que me encontravas,
E seria eu perder-te e tu perder-me...
Ao menos tu..., desiste!
A sobre-humana prova que te peço,
A mais heróica!,
A mais inglória e a mais triste,
é essa..., - é este o meu preço.
Mais que o despeito, o ódio, a incompreensão
Dos por quem passei sereno,
Estendendo a mão afável
Ao frio, pérfido, amável
Aperto da sua mão,
Me punge,
Me pesa no coração,
O fruste amor dos que me interpretaram.
Ai!, bem quiseram amar-me!
Bem o tentaram.
Mas nunca me perdoaram
O não serem dominados
Nem poderem dominar-me...
E assim o nosso amor foi uma luta
De cobardes abraçados.
Entre eu e tu,
Tão profundo é o contrato
Que não pode haver disputa.
Não é pacto
Dum pobre aperto de mão:
Entre nós, - ou sim ou não.
Despi-me..., vê se me queres!
Despi-me com impudor,
Que é irmão do desespero.
Vê se me queres,
Sabendo que te não quero,
Nem te mereço,
Nem mereço ser amado
Pela pior
Das mulheres...
Poderás amar-me assim,
(Como explicar-me?!)
Por Qualquer Cousa que eu for,
Mas não por mim!, não a mim...!

Beijo-te os pés, meu amor.


Santa Maria, 22 de Dezembro de 2008


Ana Loura

20 de dezembro de 2008

Santa Maria não vale um caracol
















































Santa Maria não vale um caracol, Santa Maria vale 70 espécies diferentes de caracóis, cerca de 20 a 25 espécies endémicas e uma mão bem cheia de espécies únicas no mundo! Diz o Professor Frias Martins que isto se deve à avançada idade geológica da nossa pequena ilha. Pequena mas recheadinha de coisas lindas que só quem olha com olhos de ver consegue de facto ver e para isso muitas vezes é preciso aproximar os olhos do chão que nós e as nossas vacas pisamos.

Frias Martins, cientista da Universidade dos Açores, e David James Harris, este, investigador chefe de um projecto próprio o Integrated Biology and evolution, para além de integrar o Centro de Investigação de Biodiversidade e Recursos genéticos da Universidade do Porto situado no pólo de Vairão, Vila do Conde (as minhas duas terras ligadas pela ciência, pela Biologia, pela investigação e eu impante de orgulho), desenvolvem, neste momento projectos de recolha de especímenes para a investigação na área dos ADN para identificação e catalogação das espécies raras existentes apenas na nossa ilha em paralelo com um outro projecto na área da evolução biológica, este projecto mais recente. A Universidade dos Açores mantém há anos parceria de investigação com Centro de investigação e biodiversidade e recursos genéticos da Universidade do Porto, parceria essa, que foi nos anos 90 oficializada. Diz Frias Martins que Santa Maria “tem um potencial científico que a torna especial” precisamente pela sua idade e preservação (pelo menos por enquanto no que se refere à preservação, acrescento eu).

Foi uma manhã inesquecível que passei com estes dois cientistas, em que os vi de bruços rostos a centímetros da terra, a esgravatar cuidadosamente à cata de caracoizinhos minúsculos. Emocionei-me quando me colocaram na mão um exemplar de uma espécie de caracol existente apenas em Santa Maria, única no mundo!!!quando brinquei com uma “meia lesma” que desfilou sobre uma folha de conteira enquanto a fotografei, quando vi três ovinhos numa cavidade de uma pedrinha de basalto. Senti-me pequenina naquele mundo minúsculo.

Obrigada Professor Frias Martins, obrigada Doutor Harris pela vossa paciência em se deixarem acompanhar por mim e obrigada pelas respostas à minha curiosidade. Valeu a pena acordar cedo

Santa Maria não vale um caracol, um corninho de um caracol, isso sim, para a RTP AÇORES, a televisão pública Açoriana, que não achou importante que fosse feita reportagem, notícia, sobre este importante trabalho. Bem dizia o outro: “Um suspiro no Faial e o arquipélago todo tem que gramar a notícia…”


Santa Maria 14 de Dezembro de 2008