13 de março de 2011

Retiro na cidade - 5

foto tirada do site dos Dominicanos de Lille

A Palavra de Deus

«Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito»

Evangelho segundo S. Marcos 4,1

Turistas ou peregrinos?

A meditação

Jesus não faz turismo. No entanto ao longo de todo o Evangelho, ele aparece como um infatigável caminhante, um itinerante que atravessa a terra da Palestina. As suas deslocações ilustram um aspecto essencial do ser de Cristo: é um peregrino que vem ao nosso encontro, faz o seu caminho até nós, atravessando as nossas estradas, para fazer da sua vida o caminho para Deus. Para isso ele dá o primeiro passo, tomando a iniciativa de se juntar a nós.

O evangelista Mateus fala assim da viagem inaugural de Jesus, símbolo de todas as deslocações ulteriores. Ele menciona três etapas que são lugares onde Israel faz a experiência da presença de Deus e questiona a sua relação com Ele. Locais de prova, de questionamento do nosso relacionamento com Deus: o deserto, o templo e o cume de uma montanha. E o Filho de Deus deixa-se conduzir nesses três lugares simbólicos, porque ele quis viver plenamente a nossa condição humana.

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O caminho de humanidade que ele nos pediu emprestado para vir até nós, precisamos de nos empenhar nele pela parte que nos toca. Se cada caminho é único, existem, senão passagens obrigatórias, pelo menos existem «etapas» essenciais. Para fazer do nosso próprio caminho humano uma estrada de libertação e de felicidade, é preciso considerar como Jesus venceu as suas três etapas e pormos os nossos passos nos dele, para ir com ele até ao fim da estrada e aí reencontrar Deus.

A primeira etapa desta viagem situa-se no deserto, local de libertação após a servidão para os Hebreus, mas também local de teste da fome e da sede. Jesus sofre-as ele próprio, pois quando caminhamos devemos refazer as nossas forças. Ao diabo que lhe propõe que faça um milagre para se saciar de alimentos, Jesus responde que o homem não se alimenta apenas de pão mas que a Palavra de Deus é para ele um alimento mais essencial. Não se trata da parte dele de desprezar os aspectos materiais, pois no seu caminho que conduzirá ao reencontro com os homens, Jesus alimentou as multidões, fazendo caridade com o próximo, o mandamento essencial. Mas neste deserto, ele adverte-nos contra uma concepção de felicidade reduzida à satisfação unicamente das nossas necessidades materiais com risco de já não termos ouvidos para a palavra de Deus. Esta ilusão da felicidade que consistiria em sermos saciados «de pão e circo» segundo o velho slogan romano repetido hoje pelas nossas sociedades de consumo. Nesta primeira etapa da viagem, a prova consiste em perguntar aos filhos de Deus, que queremos ser, qual é o alimento que desejamos e que concepção temos nós de Deus: distribuidor gratuito de bens materiais ou o único cuja Palavra refaz as nossas forças?

A segunda etapa conduz Jesus ao topo do templo de Jerusalém, onde o diabo lhe promete que se ele se atirar para baixo não sofrerá nenhum mal, Deus poupando-o do sofrimento e da morte. O nosso caminho passa por esta prova quando nós nos perguntamos como conciliar a nossa fé na Providência de um Deus que nos ama e a experiência escandalosa do sofrimento e da morte. Quando ele for confrontado, como todo o homem chegado ao início da viagem, Jesus não recusará esta prova, porque ela faz parte da condição humana e que ele veio para vivê-la até ao fim, e até ao fim do amor. Ele indica-nos através da sua atitude de confiança total no Pai, o caminho de humanidade que nós podemos seguir. Ele não veio pregar a resignação: ele próprio curou doentes, ressuscitou mortos. Mas ele veio viver estas provas connosco, para nos dar a força para as vivermos nós próprios. Quando Jesus for condenado junto do templo, Deus não enviou os anjos para o livrar da cruz, mas ressuscitando-o, fez da morte natural, unicamente pela força do seu amor, a passagem para a vida.

A terceira etapa, conduz Jesus ao topo de uma montanha, de onde se podem ver todos os reinos. Jesus é confrontado com o orgulho e com o desejo de poder. Exactamente os mecanismos sociais que geram a violência e o ódio têm por fundamento este desejo de domínio. Cristo, ele mesmo, quis ser aquele que serve, para que cumpramos a nossa humanidade, tornando-se servidores dos nossos irmãos.


Estas três etapas do percurso de Cristo reflectem todo o seu caminho de humanidade, que ele percorreu numa atitude filial para com o seu Pai e numa atitude fraternal em relação a nós, seus irmãos. Este caminho, ele propõe-nos que lho emprestemos. O caminho da nossa vida é-nos pessoal, porque a nossa história é única, ao mesmo tempo que se pode juntar ao caminho que Cristo percorreu. E se colocarmos os nossos passos nos dele, então a vida de Cristo torna-se nosso caminho, aquele que nos leva ao reencontro com o Pai.

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12 de março de 2011

Retiro na cidade - 4

imagem tirada da net


A Palavra de Deus

«Eis que estou à porta e bato»
Livro do Apocalipse 3, 20

A meditação
Vai

Eis-te diante da porta afastada. Irás abri-la? Terás, por certo, razões para recuares: há tanta coisa para ser feita lá fora, projectos para levares avante. Há o trabalho que te assoberba, a família, os amigos que te reclamam, e milhares de actividades da tua vida de todos os dias, os lugares que tu conheces de cor, esse quotidiano banal, mas tranquilizante.

Mas do outro lado, uma outra parte de ti mesmo espera. Uma parte ferida, uma parte obscura, uma parte rejeitada. Tudo isso é também tu. Não abrir, não será reduzires-te à fatalidade? Haveria realmente alguma coisa de irremediavelmente perdido em ti, para sempre? Não há nada a ser salvo nesse refugo guardado no fundo de ti? Não há nada de bom que possa germinar ali, se pedires a Deus que faça milagres?

Apenas por esta vez, escolhe o desconhecido. Prefere o silêncio às palavras, a surpresa aos planos escritos com antecedência. Deixa-te guiar pelo mais seguro dos guias, acolher pelo mais doce dos hóspedes, convidar por aquele que se convida para dentro de ti mesmo.

Tu não ousas? Então escuta. Por detrás da porta alguém se agita. Por detrás da porta alguém bate. Alguém, que não conheces, é está ali. Ele conhece-te. Ele espera-te no quarto dos fundos, no fundo do teu coração. Confiança, Ele chama-te. Responde: «eis-me aqui, Senhor!» De lá de dentro, eis que ele te abre. Vai!

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11 de março de 2011

Retiro na cidade - 3

Foto tirada da net

A Palavra de Deus

«Fui abrir a porta ao meu amado, mas virando as costas, o meu amado desapareceu. »
Cântico dos Cânticos 5,6

A meditação
Apanha-me se puderes
Reconheci-o de imediato. Por entre todos aqueles rostos familiares, no salão, estava o meu bem-amado. Ele estava, portanto, lá dentro, quando eu o esperava lá fora. Não o imaginava assim, apesar de tudo. Dentro da sala todos falam, há movimento, atarefam-se. Mas ele não diz nada, ele olha-me, ele sorri. Ele tem o rosto doce dos pobres que nos passam despercebidos na berma do caminho. Ele parece não estar à vontade no meio daquela gente toda.

Eu avanço, ele faz-me um sinal que o siga. Eu hesito, abro caminho, sob olhar desnorteado dos meus amigos. Que lhe deu? Riem-se, espantam-se, mas eu já não tenho tempo. Corro atrás daquele que eu esperava, o Senhor da minha vida. Mas eis que ele avança, franqueia as portas, desce as escadas de dois em dois degraus. Ele esquiva-se pelos obstáculos que entravam a sua rota: canos rotos e água porca estagnada, os vasos escacados, os móveis partidos. «Espera! Tem cuidado: tu vais cair, vais ferir-te nesse labirinto que leva ao fundo de mim!» Mas ele conhece o caminho e ele agora embrenha-se, falta-me o fôlego quando no fundo do caminho, as suas costas, de repente, desaparecem. Já não há luz, mas eu conheço este lugar. A porta estava fechada, mas ele entrou. Conduziu-me exactamente aonde ele queria. E o meu coração arde ao adivinha-lo ali, tão próximo, tão longe, tão no fundo de mim mesmo. Luz quente e viva que brilha dentro da porta.

Tradução de: http://www.retraitedanslaville.org/spip.php?sommaire&date=2011-03-11

10 de março de 2011

Retiro na cidade - 2

imagem tirada da net
A Palavra de Deus

«Quer esteja a dormir, quer se levante, de noite e de dia, a semente germina e cresce, sem ele saber como.»
Evangelho segundo São Marcos 4, 27

Deixa o teu quintal

É bem bonito o meu jardim cultivado pelos meus cuidados. Nem uma erva daninha, nada que me passe despercebido. Estou orgulhoso dele…mas já estou aborrecido. Claro que me felicitam pelas minhas rosas bem podadas e a minha relva tão verde. Se eles soubessem o que ele esconde!De tanto falar de flores e relva, não dizemos realmente mais nada. Eu poderia ficar a vida inteira no meu jardim, na frente da minha casa, de sorriso estampado nos lábios, deixar que vejam em mim apenas uma fachada. Eu poderia viver o resto da vida podando as mesmas sebes, regando as mesmas plantas, cultivando a vida num vaso. Por um instante, eu pensaria que sou eu que faz crescer tudo aquilo. Eu poderia ficar alí especado, à espera do Convidado de honra para quem eu plantei aquele cenário.
Mas, por mais que eu espere por esse final feliz, eu não vejo nada acontecer, é preciso que eu acorde. Hoje eu deixo as minhas plantas no terreno, a chuva fará sozinha o seu trabalho. Eu parto, pois tudo isto crescerá sem mim. Tanto pior se o meu jardim ficar um pouco selvagem. Tanto pior se alguém se inquietar: «estás bem mudado!» Abandono o jardim, entro em casa. Vou dar uma volta por aí, nunca se sabe: e se Aquele que eu espero já entrou, sem passar pelo jardim? Está decidido, parto para uma viagem, à Sua procura, dentro de casa.
Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/spip.php?sommaire&date=2011-03-10

9 de março de 2011

Retiro na cidade - 1

Foto de Luis Lobo Henriques


A Palavra de Deus

«6Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te.» (Mateus, 6,6)

Limpeza de primavera

Em breve será Primavera, será necessário enclausurar-me? O sol finalmente brilha, irei esconder-me? Aferrolhar-me em casa, quando tudo me convida a sair, aqui está uma forma estranha de começar a Quaresma. Eu que queria finalmente fugir das coisas empilhadas e atamancadas no fundo da casa, debaixo da cama, em cima da secretária: os livros que nunca li, as peúgas desirmanados, a louça desarrumada. Um monte de coisas que não estão em ordem, que esperam para mais tarde e gostaríamos de esquecer. No fundo do nosso coração também existem muitas coisas empilhadas: querelas que nos afastam, perdões à espera, feridas mal saradas. Nem sempre gostamos de nos retirar para esses cantos das nossas vidas, preferimos ignorar esses lugares escondidos dentro de nós, escondidos atrás de portas fechadas com duas voltas da chave.

No entanto é para lá que o Senhor nos pede que vamos hoje: para os recantos escondidos da minha vida. «Retira-te para o fundo da tua casa». Não fiques aí, ao sol, franqueia uma a uma as portas, primeiro as mais fáceis de abrir. Encontra os lugares onde é bom permanecer: as salas familiares, acolhedoras. Aquelas que são apreciadas pelos teus amigos, a tua família, onde brilham as tuas qualidades.

Depois continua, e entra noutros quartos, mais íntimos: os sentimentos que não partilhas senão com poucas pessoas, os segredos, as fraquezas. E ao fundo, bem ao fundo chega junto daquela porta fechada. Abri-la parece-te talvez imprudente. Tudo o que por trás está tão mal arrumado não corre o risco de me cair em cima, de me ferir, me sujar?

Sabe, no entanto, que o mais belo dos reencontros te espera para além daquela porta. Porque Cristo se escondeu lá. Ele desertou do jardim ensolarado, do lugar acolhedor, do apartamento modelo. Ele adiantou-se a ti, para o quarto recôndito.

Abro? Mas de que tenho medo? Quando os discípulos, por medo, fecharam-se num quarto hermético depois da ressurreição, o Senhor não hesitou em vir para o meio deles. As suas vidas estavam cheias de sombras e de dúvidas, e é para esse quarto obscuro que Cristo veio trazer a luz da Sua ressurreição: «Confiai, sou eu!». Se isto resultou com eles porque não há-de resultar comigo? Deus não viria, não entraria, no que há de mais fechado em mim? Irei eu correr para longe do local onde ele me espera?

Além disso, é exactamente aqui que ele me irá ser útil. A arrumação, eu já a fiz vinte vezes na sala. Na frente da casa, o alpendre está impecável. Salvei as aparências, da fachada nada há a dizer. Mas este tempo de quaresma nada tem a ver com a renovação da fachada ou com a decoração do interior. Convida-nos mais a arejar até ao mais recôndito da casa, a deixarmo-nos tomar o fôlego do sopro vivo desses primeiros dias ensolarados.

Aqui já não sou eu quem O acolhe, é Ele que me acolhe. Esse quarto escondido no fundo de mim, ele conhece-o muito melhor do que eu. É ele, o quarto, que lhe interessa, pois é lá que ele tem mais trabalho a fazer. Pôr em ordem, consertar, escolher: uma verdadeira limpeza de Primavera.

É a altura exacta de nos virmos juntar a Cristo no quarto dos fundos, para lhe dar uma mão. Sem dúvida, com ele, o trabalho irá correr bem. Ele é que fará o trabalho, a nós basta-nos apenas rezar-lhe e segui-lo

Quem sabe? Com ele, talvez ousarei agarrar-me a essa série de nós complicados que paralisam certas relações? Com a Sua ajuda, talvez me aconteça meter o dedo nalguma ferida, para lhe pedir que as cure? Com a Sua força, talvez concerte dois ou três móveis, velharias encafuadas em mim, velhos talentos esquecidos escondidos nalguma roupa. Com a Sua doçura, eu reencontrarei algo de novo enterrado na poeira, para o fazer brilhar lá fora, no grande dia da minha vida.

Retirar-nos para os fundos, por momentos. Para nos escondermos uns tempos, no fresco de uma sombra e falar sem receio com Aquele com quem na sala, ou no jardim eu ousaria apenas cruzar-me.

Esse quarto será o nosso segredo durante toda a Quaresma. Desta porta, apenas nós, Ele e eu, temos a chave. Ninguém saberá o que tramamos em segredo, dia após dia nos fundos da minha casa. Apenas um ruído, em surdina: móveis que deslocamos, coisas que consertamos, um estaleiro enfurnado dentro de mim. Qualquer coisa como uma ressurreição, que sobe do mais fundo de mim mesmo, para fazer dos meus túmulos o mais belo jardim de Páscoa.


Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/

22 de fevereiro de 2011

momentos: Investimento ou desperdício

Um artigo que deveria ser lido por todos os marienses, principalmente por aqueles que dizem que apesar do campo de golfe não vir trazer nada de valha a pena a Santa Maria sempre é melhor do que "investimento" ser aplicado noutra ilha...bairrismos inconsequentes...


momentos: Investimento ou desperdício: "O golfe tem sido apresentado como uma das principais âncoras do modelo de desenvolvimento para o sector do turismo na Região o que, no plano..."

1 de outubro de 2010

E tu disseste: roubaram-nos o sonho

Tu disseste, roubaram-nos o Sonho
Tu perguntaste, que disse o poeta?
Tu disseste, preciso de notícias do meu país.

As notícias de hoje do teu país são iguais às de todos os dias, as primeiras páginas esgotaram ontem o tema que nos roubou a última réstia de sonho (eu tenho a esperança de que ainda haja sonho, mas eu sou assim, dada a utopias): um homem perdido no mar, outro que morre a fazer poço, a Irlanda atinge défict de 32%, 131 casamentos homossexuais em 4 meses. Ah, cá está: Seis em cada dez euros do esforço de contenção orçamental serão pagos por toda a população, e mais: Estado encaixa 250 milhões de euros com os cortes no abono de família a 1 milhão e 383 mil crianças e jovens, mas não, não fala do poeta.
Será que alguém, ele, se interroga porque o Povo volta a andar de olhos no chão? Certamente ele não! Não verá as lágrimas nos olhos do Povo, o seu olhar perder-se-á para lá dos privilégios. A servidão agora é outra, é a servidão do consumismo alimentado pela banca que suga em juros e comissões até ao último cêntimo, a banca que é protegida e alimentada com o dinheiro do Povo a quem são pedidos mais sacrifícios e aumentados impostos para que seja possível salvar mais bancos da bancarrota. É sempre o mesmo o explorado e são sempre os mesmos os que se safam à custa da exploração e do sacrifício dos do costume. O Povo já disse uma vez NÃO. Está a chegar o tempo de voltar a dizê-lo, mas não será este poeta a semear canções neste vento que passa. Este? Não. Este envelheceu, caducou, aburguesou-se. Eu penso que ele já disse tudo quando disse “O vento cala a desgraça, o vento nada me diz”.


Trova do vento que passa

Autor, o Poeta Manuel Alegre
Autor da música e canta: Adriano Correia de Oliveira





Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

[Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz
nada ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

15 de setembro de 2010

De novo entre o CÁ e o LÁ. Será?




Há minutos disse à Farrusca: Bebé, sai, a Dona não está "para amar". Que chatice, melhor, que duas chatices. A primeira é não estar "para amar", sentir-me cansada e mais uma série de coisas cinzentas e desalentadoras...dormi a correr e a minha natureza precisa de muiiiiittttasssss horas de sono bem dormido, pelo menos 7 mas melhor 8 bem medidinhas. Dizem os estudos que nós os que caminhamos para velhos precisamos cada vez de menos horas de sono, eu ainda não dei por isso. Sinal de que não estou a envelhecer? Claro que estou, talvez por isso me canse mais. Mas dizia eu que as chatices eram duas, pois são. A segunda é que o "não estar para amar" não faz parte do léxico de cá e de repente eu senti uma imensa saudade do lado de lá e mais uma vez me sinto apátrida, assim no meio do atlântico entre o CÁ e o LÁ, seja o que for que isso signifique...
Bom, vou tentar levantar a tampa do saneamento dos esgotos da cozinha, estão entupidos (disseram-me há tempos que está mal construído, pois o certo é que eu paguei a sua construção como se tivesse sido bem feita). Coragem, Ana, o que está destinado a ti, não o está a mais ninguém.
Vá lá, Farrusca, desculpa-me, vai um miminho?

2 de setembro de 2010

O comboio partiu à tabela




Hoje alguém decidiu que não valeria a pena viver nem mais um segundo e quando o Inter-cidades que tinha partido de Campanhã às 10:52 ia a passar na estação da Azambuja sentimos o comboio “ tropeçar” estranhamente. Abrandou marcha e parou. Minutos depois sabíamos que “um indivíduo do sexo feminino havia sido colhido pela composição”. Estava consumado.

E se o comboio tivesse partido atrasado? Será que os minutos de atraso teriam adiado ou mesmo alterado definitivamente a decisão? Tanta interrogação, tanta coisa me passa à velocidade do inter-cidades no pensamento, tanta angústia, tanta lembrança de desesperos, impotências que felizmente o “tempo” resolveu. O meu comboio chegou atrasado, felizmente! Porque afinal tudo se resolve, a morte física é que não.
Gracias à la vida…graças a Deus!!

12 de junho de 2010

Manuel Pina- Cronicar






Perdi a noção de há quanto tempo não escrevo o que penso e sinto em jeito de crónica. Não é bem assim afinal, tenho alguns textos começados, ideias alinhavadas. Mas, apenas isso. A falta do prazo semanal para ter a crónica pronta a ser lida a cada Segunda de manhã aos microfones do Asas, a tal dead line instigadora do tem que ser, vamos a isso que é quase meia-noite e ainda nem sei sobre o que irei escrever, deu nisso: em nada…Nutro admiração profunda por quem alimenta blogs diáriamente, pelo Samuel Quedas, por exemplo, que com disciplina se “obriga” a diariamente ou quase a ter um post novo nos seu Cantigueiro. Sei muito bem que o ir espreitar um blog é um hábito criado pela espectativa da novidade, pela quase certeza do interesse do que irá ser encontrado, lido. Mas pronto, deixei de escrever, apenas quase só isso, por várias razões ou talvez nenhuma em que a alteração de grelha de emissão do Asas que nunca ocorreu provocando a suspensão da Crónica do Dia, cujo único cronista sobrevivente dos quatro iniciais fui eu, justificou.

Há dias, numa ida a reunião do Partido a São Miguel, comprei um catálogo de uma exposição de fotografias de Eduardo Gageiro sobre o 25 de Abril editado pela Editorial Avante. O catálogo tem para cada foto um pequeno texto de escritores portugueses. Folheei-o, passei os olhos, senti uma imensa saudade do que já perdemos ou nos roubaram de Abril, do que poderia ter ainda mais sido, do que falta cumprir. Por coincidência ou não, li mais devagar o texto de Manuel Pina, por coincidência, ou talvez não, o Pedro, meu filho, telefonou nesse momento a perguntar se eu conheço Manuel Pina, claro que conheço, não leio o Notícias amiúde, em tempos era o jornal que era lido diariamente em casa dos meus pais, agora apenas ao fim de semana, mas quando o leio a pequena crónica é leitura "obrigatória". Vai ser lançado um livro dele na escola, o meu "sôtor" de Filosofia falou-me, vais comigo?

Claro que vou...e fui...à apresentação do livro Por outras palavras e mais crónicas de jornal de Manuel António Pina na Escola Soares dos Reis, antologia seleccionada e organizada por João Sousa Dias.

Manuel António Pina é um conversador, as palavras têm estórias e história por dentro. Sabe tão bem ouvi-lo e o tempo se passa, e passa, não damos por isso.
Revi-me em muito do que disse sobre o fazer das suas crónicas, nos temas que o olhar a vida torna urgente as letras surgirem uma a uma digitadas na tela do computador.
Depois nos autógrafos a conversa continuou com cada um dos que desejaram que Pina "autententicasse" a autoria do livro.

O "s'tor" de Filosofia do meu filho, Sousa Dias, foi o responsável pela selecção de 244 crónicas editadas neste livro das mais de 2000 crónicas escritas pelo autor depois da edição da primeira colectânea O Anacronista. Comprei o livro, que ofereci ao meu filho. Ando a lê-lo devagar, a saboreá-lo e de repente fiquei com saudades de escrever, de ler as minhas crónicas ao microfone do Asas rematando-as com o meu
Abraço mariense

Ana Loura

8 de maio de 2010

O direito à indignação

Caros amigos, após ter sido alertada por um amigo em relação ao conteúdo do vídeo do programa Gente da Minha terra 8 da SIC Radical, achei por bem lançar uma petição pública que está no endereço http://www.peticaopublica.com/?pi=P2010N2048 que peço leiam e se acharem por bem assinem e divulguem.

Abraço
Ana Loura

Aqui está o vídeo:

29 de abril de 2010

Festejar Abtril em Maio


Festejar Abril em Maio é uma iniciativa do Clube Asas do Atêntico com apoio da Câmara Municipal, da Editorial Caminho, da Livraria Plano A- Vila do Porto e do Quiosque do Aeroporto e espera-se também o apoio da Secretaria da Cultura. Teremos a animar musicalmente as noites de Sexta e Sábado Samuel http://samuel-cantigu...eiro.blogspot.com/ , Manuel Freire http://deltacat02.com.sapo.pt/manuelfreire.html , Zeca Medeiros http://www.myspace.com/zecamedeiros e Roberto Freitas. Laborinho Lúcio http://luadosacores.blogspot.com/2008/06/cidadania-segundo-laborinho-lcio.html proferirá palestra sobre cidadania, Sábado será inaugurada exposição alusiva com trabalhos de alunos e escuteiros, haverá sopas de Império a 5 euros. Valerá a pena irem ao ASAS. A organização e os artistas esperam por vós.

17 de março de 2010

29

Eu que normalmente fotografo alí ao fundo à esquerda. (retirada do site do Gov Regional)
Foto do Hotel Terra Nostra no Aeroporto de Santa Maria cedida por Marco Coelho (Foto Pepe)

Fez hoje 29 anos que aterrei pela primeira vez na Ilha. Onze e pouco da manhã de uma Quinta-feira cinzenta e fria no meio de um dos Invernos mais rigorosos que vivi nas ilhas (temos a memória curta e geralmente o inverno que vivemos e este tem sido bastante rigoroso, é sempre o pior de sempre), tão rigoroso que cairam árvores centenárias no Faial e aqui caíram algumas também mas menos velhas. Confesso, já o tenho feito, que a primeira impressão foi de desilusão. A Dona Grimaneza, na casa de quem eu vivia no Faial, pintou-me a Ilha com as cores dos tempos áureos, de um aeroporto que fervilhava de vida e movimento, de um aeroporto, área residencial, com jardins bem cuidados, o Hotel Terra Nostra sempre cheio de gente onde a língua mais ouvida era o inglês, com pianista privativo a tempo inteiro, o Clube ASAS do Atlântico onde se realizam bailes, festas e concertos, que tem uma rádio ouvida até no continente. "Aninhas, escolha Santa Maria, vai ver que vai gostar". Quando concorri para a ANA (Olha, a Ana vai para a ANA, diziam os meus colegas da Escola Manuel de Arriaga) tive a hipótese de escolher ficar no Faial, ir para as Flores, S. Miguel ou Santa Maria. Vim para Santa Maria. Quando a porta do avião foi aberta e eu vi terra sem plantas, castanha em vez da verdura do Faial com o azul do mar e o Pico logo alí senti uma profunda decepção: "que fui eu fazer?".

Aqui estou. Estou porque afinal e apesar da zona habitacional do aeroporto no ano de 1981 já ser bairros de casas um tanto degradadas, os jardins já serem apenas relvados mal tratados, o Terra Nostra não ser sombra do que tinha sido (belas tostas de queijo comi durante muitos anos no bar do Terminal, belos bifes à Terra Nostra bem mal passados e sem ser batidos comi no restaurante do Terminal), os únicos aviões grandes de passageiros que nessa altura ainda faziam cá escala eram os da TAP (ainda sou do tempo do G2, mas só por poucos meses e não aproveitei) e o Concorde, cujas escalas pouco depois terminaram, Santa Maria cedo começou a ser para mim também Ilha-mãe, a meter-se debaixo da péle e eu a assumir o meu "nascimento" mariense que festejo hoje.


Abraço (efectivamente) mariense

7 de março de 2010

8 de Março. As coisas foram mudando





«Corria o maravilhoso ano de 1969. A questão era se era legal as mulheres usarem calças. É ler porque se trata de um artigo muito interessante para perceber como era a sociedade portuguesa há 41 anos.»

Graças à coragem de muitas mulheres, de conquista em conquista, as coisas foram mudando.

Eu fui a primeira rapariga a usar calças na minha terra, andava eu na segunda classe em 1959/60. Eu tinha problemas de circulação, as pernas gelavam e doíam-me as articulações. A minha Mãe que era toda moderna costurou-me umas calças, jardineiras, em fazenda de lã em quadradinhos pequeninos em tons e cinza e debruou o peitilho com bombazina. Fui alvo da chacota da malta, vim para casa muitas vezes lavada em lágrimas, já não me bastava o facto da lã me "arranhar" as pernas ainda tinha que lidar com os colegas a troçarem de mim. Eu era a Maria-rapaz... "o melhor do mundo são as crianças" que sabem como ninguém ser cruéis. O meu Pai na sua fleuma sorria e dizia: "ande eu quente e ria-se a gente, não ligues. Eles irão habituar-se a verem-te assim, não estás quentinha?" E eles habituaram-se. A minha Mãe foi a primeira mulher a usar calças por aquelas bandas e penso que das primeiras a nível nacional. A minha Mãe foi/é uma mulher fora de série.

28 de fevereiro de 2010

Romaria quaresmal 2010


Nota: Pelo que soube esta Romaria teve o seu início e o seu fim debaixo de chuva









Peço a jóvem da foto que me contacte por e-mail para combinarmos a entrega de dvd com as fotos todas. anamloura@hotmail.com


Estamos na Quaresma e nesta altura nas estradas de São Miguel podem ser vistos grupos de homens rezando e cantando orações, vestidos de forma peculiar, roupa grossa, calaçado cómodo mas forte, saca de pano à bandoleira onde levam uma muda de roupa e alguma comida para o dia, xaile grosso pelas costas, lenço colorido pela cabeça e bordão na mão como símbolos respectivamente do manto de púrpura, da coroa de espinhos e do ceptro com que os algozes troçaram de Cristo. Cumprindo uma tradição que remonta à idade média aquando a Ilha de São Miguel e particularmente Vila Franca foram sacudidas por fortes abalos sísmicos que em Vila Franca deixaram pouca pedra sobre pedra. Em épocas de provação é à Fé que o homem recorre para ir buscar forças para recomeçar e mais uma vez foi na Fé e com Fé que o homem micaelense arrepiou caminho e recomeçou vida nova quer voltando a colocar as pedras sobre as pedras ou partindo rumo à que seria poucos anos depois a segunda capital da Ilha: Ponta Delgada.
Invocando Maria, a Mãe do Filho de Deus, durante uma das semanas da Quaresma são vários os grupos que cumprem promessas ou "apenas" oram por si, pelos que às suas orações recorrem e pelo mundo inteiro, entram em todas as igrejas por onde passam e são lá recebidos pelo pároco que os acolhe com uma pequena reflexão e onde rezam. No fim de cada dia são alimentados por famílias que os acolhem. Ninguém fica indiferente à sua passagem, muitos apenas se dão conta de que a Paixão e a Ressurreição de Cristo estão próximas quando ouvem os cânticos cadenciados ao passo dos passos destes homens de Fé.
Este Rancho aqui fotografado era composto por micaelenses a viverem na Bermuda, no Canadá, nos Estados Unidos e em São Miguel. Fez parte da Romaria, também, um Padre de Nordeste.


9 de janeiro de 2010

O “casamento” “Gay”, a tolerância e o ser ou não retrógrado



Não acho que aceitar o dito casamento entre pessoas do mesmo sexo seja tolerância. Tornou-se, É uma questão política nacional e foi aprovada como lei, “em menos de um fósforo” certamente para não dar muito tempo ao Povo para perceber muito bem o que se passava, acho eu, pelos nossos representantes democraticamente eleitos. A minha filha chama-me retrógrada porque não concordo que uma união entre pessoas do mesmo sexo possa e seja considerada casamento. Para mim, para haver casamento tem que existir um casal e casal, para mim e para a maioria, implica diferença de sexo entre os dois que o compõem. Que as uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo devam dar-lhes direitos jurídicos, de herança, por exemplo, penso que sim, mas casamento??? Estão brincando…e brincando com coisas muito sérias.


Não me incomoda nada que me chamem retrógrada.



Outra coisa que a mim me aflige é a adopção (não de crianças, esse é outro assunto que irá dar pano para mangas mas que a legalisação do "casamento" torna, ao que sei, automaticamente legal) de nomes estrangeiros para tornar "soft" as palavras e os conceitos. Para mim um “Gay” é um homossexual, não gosto dos termos bem portuguêsses paneleiro e fressureira, para mim homossexual, lésbica bastam, nem o brasileirismo bixa aceito. Para mim bixa é a "Bicha do Tum-Tum, que amanhã é dia um" que a gente cantava na Primária, é a bicha da caixa do super-mercado que a bixa brasileira transformou em "Fila", enfim...modernices… Lá estou eu a ser retrógrada...seja...

14 de dezembro de 2009

"Caçadores de borboletas"



Os filhos gémeos do Dr Sérgio Ávila à caça de borboletas. Gostei imenso de ter feito estas fotos.

O Império dos fósseis













Foi lançado, em Santa Maria (depois de o ter sido em São Miguel) no passado Sábado dia 12 de Dezembro de 2009, no Centro de interpretação ambiental Dalberto Pombo o livro "Açores Império dos fósseis". É conhecido o reparo que faço ao título do livro, já o exprimi por diversas vezes: falta nem que em letra minúscula "Ilha de Santa Maria" na capa do livro logo abaixo de Açores. Mas ultrapassada essa fase e em abono de toda a verdade, que procuro imprimir ao que digo, o livro é de uma beleza fotográfica surpreendente e para além disso numa linguagem acessível fala de forma séria do nosso património fóssil (único nos Açores e raro em ilhas), e das diversas expedições científicas realizadas nos últimos anos em Santa Maria lideradas por Sérgio Ávila, autor do texto e fotografadas por Pedro Monteiro.
A apresentação do livro foi feita pelo mariense Pedro Gomes num texto fluído que prendeu a atenção e que para quem se definiu leigo em matéria de paleontologia se saiu muito bem terminando com uma justíssima homenagem a Darberto Pombo conhecida e reconhecida figura de Naturalista cujo espólio se encontra muito justamente "acautelado" no edifício onde decorreu a apresentação. A sua neta a Dra Joana Pombo Tavares, responsável pelo Centro de Interpretação, abriu a sessão. Parabéns pela organização.


E porque gostei particularmente do texto de apresentação de Pedro Gomes e tive a sorte de o receber através de Daniel Gonçalves que sabia o quanto eu gostaria de ter o texto, aqui está ele




APRESENTAÇÃO DO LIVRO “AÇORES – O IMPÉRIO DOS FÓSSEIS”
VILA DO PORTO – 12 DEZ2009






Minhas Senhoras e Meus Senhores


As minhas primeiras palavras são de sentido agradecimento ao Doutor Sérgio Ávila e ao Pedro Monteiro pelo convite que me fizeram para apresentar o livro Açores – o império dos fósseis.

Conhecida a minha ignorância em matéria de fósseis e a falta de jeito para a fotografia – para além das tradicionais fotografias de família, em que, muitas vezes, pés ou cabeças, inexplicavelmente, desaparecem da objectiva – o convite é uma temeridade, que só a amizade pode justificar.

Em tempo de Natal, que convoca a memória e a alegria do reencontro, juntamo-nos para assinalar a combinação feliz entre os sentidos e a ciência.

Nestas ruas que percorri vezes sem fim, em que brinquei e me fiz gente, entre as gentes que conheço e em que me reconheço, estou em casa.

Ao fundo, a Matriz em que me baptizei. Mais ao lado, as casas em que morei. Aqui mesmo, onde nos encontramos, no Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo - local que evoca um amigo de longa data - a casa duma das minhas catequistas.

Aqui pertenço. Sou daqui, nesta singularidade de ilhéu que nos distingue de todos os outros portugueses.

Como povo açoriano – expressão de que alguns não gostam – definimo-nos na relação com o mar, com os vulcões, na luta contra as intempéries e a natureza inclemente ou contra a incompreensão do poder político que persiste em não entender que somos diferentes.

As adversidades moldam-nos o carácter. As dificuldades temperam-nos a coragem. A distância – todas as distâncias que temos de vencer – fazem-nos mais determinados. Não desistimos nunca.

Como escreveu João de Melo, num verso que gosto de evocar, somos o “povo que nasceu do mar”.


Minhas Senhoras e Meus Senhores


Comemora-se, neste ano de 2009, o bicentenário do nascimento de Charles Darwin e os cento e cinquenta anos da publicação da Origem das Espécies, o seu livro mais famoso.

Poucas obras na nossa história terão mudado duma maneira tão profunda, a perspectiva sobre nosso lugar no mundo.

No final duma viagem de cinco anos a bordo do navio Beagle, Darwin passou pelos Açores, a caminho de Inglaterra. Primeiro na Terceira, depois em S. Miguel.

Charles Darwin achou as ilhas pouco interessantes, não lhes dedicando mais do que quatro breves referências na Origem das Espécies. “Gostei imenso da visita, mas não encontrei nada digno de registo”, afirmou.

Pois bem, nas ilhas há uma história para contar e muita coisa digna de registo, como demonstra O Império dos Fósseis.

Cento e cinquenta anos depois, Sérgio Ávila e Pedro Monteiro ajudam a revelar o erro de Darwin, confirmando a biodiversidade destas ilhas e o facto dos Açores serem um laboratório natural, no meio do impaciente oceano Atlântico.

Não poderia haver coincidência mais feliz do que esta, para nos reunirmos em Santa Maria.

O Império dos Fósseis é um prazer para os sentidos.

A belíssima fotografia de Pedro Monteiro transporta a magia dos lugares e das coisas.

O Pedro Monteiro, com apurada sensibilidade de artista, faz da fotografia dum livro de carácter científico, uma obra de arte.

Através do olhar do Pedro Monteiro, os lugares chamam por nós.

O Império dos Fósseis é, também, um livro de divulgação científica.

Escrito por um jovem cientista, formado na Universidade dos Açores e já com um intenso percurso académico de investigação, este livro conjuga o rigor do cientista com a qualidade do divulgador da ciência.

De modo aparentemente simples, o Doutor Sérgio Ávila conduz o leitor pelos caminhos da expedição científica realizada em 2006 a Santa Maria, para estudo das jazidas de fósseis, transformando-o em mais um membro da expedição.

Oscilando entre o registo de diário de expedição e o da anotação científica, O Império dos Fósseis é um precioso guia de conhecimentos sobre fósseis e de redescoberta de Santa Maria.

A este propósito, o título do livro não podia ser mais significativo: tal como nos Impérios do Espírito Santo, em que a Fé a todos iguala, no louvor da terceira pessoa da Santíssima Trindade e na partilha da carne, do pão e do vinho, o saber que este livro revela é acessível a todos.

Fazer ciência e divulgá-la ao público em geral não está ao alcance de muitos. Sérgio Ávila e Pedro Monteiro conseguiram-no com este livro.

Afinal, O Império dos Fósseis significa ciência para todos.

Com este livro retomamos inquietações de sempre: quem somos? De onde viemos? Como evoluiu a vida na terra?

Em cada fóssil, os cientistas procuram uma nova resposta. A cada nova resposta, surge outra dúvida. Eis a essência do conhecimento científico.

Num certo sentido, O Império dos Fósseis desperta em nós a inquietação sobre o nosso lugar no mundo, sobre o princípio e o fim e o big bang do universo e da vida.


Minhas Senhoras e Meus Senhores


Se os fósseis e as suas jazidas são mapas silenciosos da nossa história biológica, o livro que hoje é lançado constitui um desafio à afirmação de Santa Maria como um geo-parque.

A paleontologia permite colocar Santa Maria num roteiro de locais de interesse científico - relevantes para a comunidade científica – e de geo-parques com inegável interesse turístico.

A partir de fósseis com milhares de anos, há uma oportunidade para diferenciar Santa Maria no presente, com um evidente sentido de futuro.

Apesar de ser uma ilha pequena, Santa Maria não tem de estar na periferia do conhecimento.

Certamente, Dalberto Pombo, pensou assim.

O Império dos Fósseis evoca a sua memória, numa justa e merecida homenagem, que ultrapassa a barreira física das ilhas.

Saúdo, neste momento, com amizade, a sua família aqui presente, partilhando a saudade pelo seu desaparecimento.

Conheci Dalberto Pombo desde sempre, como os Açorianos se conhecem. É um amigo de saudosa memória.

Escriturário por dever de ofício, foi um naturalista por devoção e um pedagogo por convicção.

No Corpo Nacional de Escutas – de que foi um dos fundadores - ou no Centro dos Jovens Naturalistas – que fundou e dirigiu – sempre privilegiou a transmissão de conhecimentos aos mais jovens.

Espírito inquieto, com uma curiosidade insaciável, Dalberto Pombo promoveu a divulgação científica e a educação ambiental, incutindo em todos a vontade de saber mais.

Auto-didacta, formou centenas de jovens – um dos quais eu próprio – iniciando-os no conhecimento científico e ensinando as técnicas e cuidados de colheita, classificação, preparação e preservação de espécies, nas áreas da botânica, geologia ou da biologia.

Ainda hoje, conservo algumas caixas com borboletas e insectos, colhidos em trabalhos de campo, devidamente “preparados” – como dizíamos na gíria de naturalistas amadores - para exibição, catalogados e que fazem as delícias dos meus filhos. Permitam-me referir, que os bichos têm resistido bem aos últimos trinta anos…

Lembro-me que, quando não havia alfinetes entomológicos (adequados à conservação de insectos), pois eram caros e difíceis de obter, recorríamos aos alfinetes de cabeça, surripiados à caixa de costura da mãe – alternativa sugerida por Dalberto Pombo, com o seu proverbial espírito de improviso.

De Lisboa à Nova Zelândia correspondeu-se com cientistas, universidades, centros de investigação e outros naturalistas e participou em inúmeras expedições, tornando-se uma referência incontornável.

Contribuiu para a descoberta de dezenas de novas espécies para a ciência, tendo sido homenageado com a atribuição a cinco delas do restritivo específico pomboi.

Refiro aqui, também, a descoberta, em S. Jorge, duma sub-espécie da borboleta Hipparchia Azorina que, tendo sido dedicada ao Centro dos Jovens Naturalistas tomou a designação de Hipparchia Azorina Cejonatura.

Sem dispor dos meios de comunicação de hoje, Dalberto Pombo não se intimidou com a pequenez insular, dando às coisas do espírito a dimensão que a geografia não autorizava.

Fez da ilha um mundo de outros mundos, com humildade e generosidade.

Como reconhecimento – sempre insuficiente – da sua dedicação ao bem comum, a Assembleia Legislativa concedeu-lhe em 2008 e a título póstumo, a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico, para que tive o gosto de contribuir, enquanto Deputado.

No Centro de Interpretação Ambiental, onde estão depositadas as suas colecções, lembramos um homem de coração grande que amou a ilha que se tornou a sua terra.

Dalberto Pombo deixou seguidores. Os autores d’ O Império dos Fósseis são disso exemplo.

Saudade não é tristeza.

Que O Império dos Fósseis nos seduza e inspire a conhecermos os Açores como Dalberto Pombo procurou conhecer.