"Mulheres de Atenas", título de canção de Chico Buarque que será título de programa de rádio sonhado há 25 anos, um dia...
5 de julho de 2017
26 de novembro de 2013
Um recadinho para o Facebook
6 de agosto de 2013
As listas de espera da saúde regional
27 de outubro de 2011
A Mãe das pombas
Ao ler este texto de Eduardo Bettencourt Pinto(http://eduardobpinto.wordpress.com/2008/02/07/a-mae-das-gaivotas/), lembrei-me de fotografias que tirei há dias no Faial. De alguma forma roubei o título.


Em andando pelas ruas da cidade, máquina fotográfica ao pescoço, perco a noção do tempo. Paro nos nas esquinas, as janelas das casas em ruínas seduzem-me, meias abertas, vidros partidos. Cortinas esfarrapadas, encardidas, espreitam-me. O Mercado, paragem obrigatória, está fechado, é Domingo. Continuo deambulando, olho o relógio. Está quase na hora de partir. Mas, como eu gosto desta cidade! Os taxistas acertam os sonos, alguns, outros passam a flanela nos cromados. No jardim, chega uma mulher. Na mão um saco de plástico com milho. Pousa-o num banco. As pombas, que estavam nos galhos da araucária à espreita, começam a esvoaçar à volta da mulher. Poucas, de início. À medida que ela vai metodicamente espalhando o milho num carreirinho, o bando aumenta. As pombas quase cobrem a mulher. O taxista do pano de flanela acerca-se. Traz, agora, na mão bocados de pão que atira juntando-os ao milho.
- Parece que não estão com fome, hoje. Quem sabe a Aurora já cá tenha estado. Ela vem todos os dias.
- Ah, talvez. Achas? É cedo ainda. Hoje estão menos. Não sei o que se passa
E o homem assobia olhando o céu de roda. A mulher coloca a mão na testa em jeito de pala, o sol da manhã encandeia-a. Mas não vem mais nenhuma pomba.
-Mesmo assim comeram tudo. Amanhã há mais.
- Pois há. Então bom dia!
-Bom dia! Até amanhã.
19 de abril de 2011
Domingo de Ramos no retiro da Cidade

Eis-nos entrados na Semana Santa em que seguiremos Jesus subindo para a sua Paixão e para a cruz. Com a liturgia de Ramos, aclamamos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém como um aperitivo do triunfo de Páscoa. É preciso, com efeito, estar-se deslumbrado pelo Cristo em glória para seguirmos Cristo, nas humilhações da sua Paixão sem perder o coração. Mas no entanto, a Semana Santa recorda-nos que não podemos tomar parte na alegria da ressurreição de Jesus sem comungarmos dos seus sofrimentos e da sua cruz.
Por certo a mensagem da cruz é, hoje como ontem, difícil de entender. O sofrimento e a morte parecem tão absurdos que é difícil falarmos nelas. Eles apelam sobretudo em consideração para aqueles que sofrem respeito e silêncio. No entanto, podemos calar-nos completamente? Neste mundo onde explode sob os nossos olhos tanto sangue inocente derramado, tantas vidas destruídas, tantos homens e mulheres que sofrem e morrem, não é o momento, no início da paixão, para além dos combates, ver as revoltas inevitáveis, procurar perto de Cristo na Cruz, não respostas ou explicações, mas uma fonte de luz e de paz?
Notemos antes do mais, que antes de todos os discursos temos que acolher a cruz como uma festa e um mistério maior do Evangelho. Porque Deus não nos fala logo através de discursos mas de feitos, acções, de gestos imensos que nos revelam a sua espantosa sabedoria. Para nos salvar, Deus não escolheu o que é privilégio de alguns: a riqueza, a ciência…, ele despojou-se, humilhou-se, como diz São Paulo, até tomar sobre ele o que afecta a o nosso próprio ser, o nosso sofrimento e a nossa morte. Com isso, o mais comum, o mais íntimo, mais recôndito, ele salva o mundo. Também nas nossas provas, Cristo já não está longe de nós. Provado em tudo como nós, como nós, excepto no pecado, ele pode compartilhar com todos as nossas fraquezas e transfigurar todas as nossas feridas. Em silêncio, com efeito, Cristo conheceu as nossas dores, as nossas solidões, o despeito dos poderosos, a leviandade das multidões, a traição e o abandono dos amigos e mesmo as nossas agonias e o silêncio misterioso do Pai na hora da morte: «meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?» Mas o que muda tudo, são as palavras, todas de paz, que descerão da cruz: «Pai perdoa-lhes»; «Hoje estarás comigo no paraíso»; «eis a tua Mãe»; «Nas tuas mãos». Mas sobretudo, na Paixão segundo São João, Jesus aparece-nos como o Senhor Rei, o próprio Deus que nos dá a sua vida, por amor.
É verdade que Jesus foi «entregue» mas ele entrega-se ele mesmo. Na noite de Getsemani , quando o vêm prender, o próprio Jesus avança: «Quem procurais? Sou eu». Da mesma forma ele dá o último suspiro quando sabe que «tudo está consumado». Na cruz, Jesus faz-nos o dom total da sua vida. Na cruz do seu Filho, é o próprio Deus que nos fala da loucura do seu amor. Para nós, nessa luz de Cristo que, na sua morte, é Rei e dá a sua vida, parece-me que o Senhor nos dirige talvez um apelo. Para o compreender permito-me evocar o testemunho perturbante, o de um homem de coração, Emannuel Mounier. Quando a sua filhinha Françoise sofre de uma encefalite, ele ousa escrever à sua esposa Paulette: «Se não fazemos mais do que sofrer, suportar, aguentar, não teremos manhã nem noite, não pensemos nessa doença como qualquer coisa que nos rouba, mas como qualquer coisa que damos de forma a sermos dignos do Cristo que está no meio de nós.»


