5 de outubro de 2005

No próximo Domingo VOTE

Foto do Lugar da Maia ao amanhecer do dia 25 de Abril de 2005

Crónica lida aos microfones da estação do Clube Asas do Atlântico no dia ro3 de Outubro

Bom dia

Começou mais uma campanha eleitoral onde candidatos e apoiantes das formações políticas concorrentes se esforçam para: mais que esclarecer, mais que influenciar o voto através da exposição de pontos de vista, através da apresentação de projectos, e ideias, usarem a bugiganga, a esferográfica, o boné e o isqueiro para em troca receberem a benesse de um voto.

Onde estão as sessões de esclarecimento de antigamente? Como se faz chegar ao eleitorado o projecto político, os objectivos?

Diz-se que a classe política está descredibilizada; que a abstenção em Santa Maria irá ganhar mais uma vez e que a tendência é que ela aumente. E eu infelizmente acredito. Basta ver o desinteresse com que a nossa juventude olha tudo o que é envolvimento na sociedade.

Recebi um convite, como coordenadora da CDU de Santa Maria, para assistir e participar num colóquio promovido pela Associação dos Deficientes das Forças Armadas sobre a deficiência e a integração do deficiente.

Antes de continuar a falarmos mais especificamente sobre o colóquio quero deixar o meu mais veemente protesto para o facto da RTP Açores, a televisão paga com o nosso dinheiro, ter recusado fazer a cobertura do acontecimento…Se fosse um espirro no Faial ou na Terceira haveria lugar a reportagem e a transmissão. E note-se que nem teria sido necessário enviarem “equipa de luxo” era só autorizarem. Mas primaram pela ausência quer no colóquio quer no bonito concerto que foi realizado na matriz no Sábado à noite. Será que também não filmaram o almoço que o Senhor Gestor do Centro de Saúde ofereceu aos idosos no dia em que tradicionalmente é a Câmara Municipal a oferecer? Anda muito daimoso o nosso Centro de Saúde…Não que os idosos não mereçam, merecem-no e muito mais…mas a mim cheirou-me a demagogia e quem sabe a campanha política…

Bom, mas voltando ao Colóquio:

Foi interessantíssimo. Depois de uma introdução feita pela representante do Governo Regional, tomou a palavra o Senhor Patuleia, Presidente da Associação, que fez uma breve e muito interessante abordagem histórica à deficiência de guerra.

O Director do Centro de Recuperação de Gaia desenvolveu o tema inclusão da pessoa com deficiência na sociedade e ficou claro que a sociedade não está preparada para a inclusão, que a deficiência não está na pessoa mas na sociedade que não está preparada para a inclusão. Tudo está feito para e pelas pessoas ditas normais.

Como vos estava a dizer o colóquio, seguido de debate, foi interessantíssimo. Realizado na sala dos alunos da nossa escola secundária e foi permitido a algumas turmas assistirem/participarem. Fiquei chocada com a atitude de desinteresse que foi demonstrado pela maioria dos jovens. Parecia que o assunto não lhes dizia nada respeito. O pior é que é essa a mesma forma de estar de muita gente em relação à droga, à SIDA e à gravidez indesejada . Essas coisas só acontecem aos outros e aos filhos dos outros e esquecemos que nós circulamos nas ruas, nas estradas que de repente um carro nos atropela, o carro onde vamos se despista e bate. Muita coisa pode acontecer que é incontrolável e nos pode deixar deficientes, impedidos de aceder onde as pessoas ditas normais acedem.

Esta atitude de indiferença perante estes temas é a mesma atitude de indiferença perante a vida política do país. Os jovens não se recenseiam. Não participam…E agora eu pergunto. De quem é a culpa??? E já agora respondo porque tenho a certeza de qual é a resposta. A culpa é nossa, dos adultos, dos Pais, dos formadores, dos educadores, dos políticos que não sabemos cumprir o nosso papel junto deles, não sabemos educar, transmitir valores, não somos coerentes, dizemos uma coisa e fazemos outra. A nossa vida não serve de exemplo, não somos credíveis.

No próximo Domingo é dia de eleições. Até lá procuremos, todos, saber o que se propõem a fazer cada um dos partidos concorrentes pelo futuro de Santa Maria, quais as prioridades que cada um elege para que a vida em Santa Maria nos faça mais feliz a cada um de nós, para que valha, cada vez mais, a pena viver cá.


Não deixe passar o futuro à sua porta como se não lhe pertencesse. Saia de casa, corra atrás dele.


No próximo Domingo VOTE

Abraços marienses
Santa Maria, 3 de Outubro de 2005
Ana Loura

4 de outubro de 2005

As cores desta terra- ao Zeca Medeiros

Cantiga da terra

Dulce Pontes
Zeca Medeiros
Composição: Zeca Medeiros


Quero ver o que Terra me dá
Ao romper desta manhã
O poejo, o milho e o araçá
A videira e a maçã


Ó mãe de água, ó mãe de chuvas mil
Já não quero teu aguaceiro
Quero ver a luz do mês de Abril
E a folia no terreiro


E vou colher inhames e limões
Hortelã e alecrim
E vou cantar charambas e canções
P'ra te ter ao pé de mim

E nos requebros desse teu balhar
Quero ser o cantador
E vou saudar a várzea desse olhar
Ao compasso do tambor


"O açoriano Zeca Medeiros, autor do álbum "Torna Viagem" que conquistou recentemente o Prémio José Afonso de 2004, apresentou-se no passado dia 1 de Outubro, pelas 21h30, no palco dos Recreios da Amadora. Aí não só efectuou um espectáculo especial com alguns convidados, como recebeeu também o referido galardão que, há mais de uma década, premeia obras inovadoras da música popular portuguesa."
In: http://cronicasdaterra.weblog.com.pt/arquivo/2005/09/zeca_medeiros_r.html

"José Medeiros nasceu em Vila Franca do Campo, Açores, em 8 de Dezembro de 1951. Em 1976 entra para os quadros da RTP. Trabalha alguns anos em Lisboa e regressa aos Açores, em meado dos anos 80 para continuar a carreira de realizador na RTP - Açores.

Embora envolvido na música tradicional e popular desde os anos 70, José Medeiros, tornou-se mais conhecido pela realização de várias séries televisivas para as quais compôs canções, fortemente baseadas na tradição e cultura açoreanas, reflectindo a profundidade e a nostalgia dos sentimentos ilhéus.

Destes trabalhos televisivos destacam-se: em 1986 os "Xailes Negros", em 1987 a "Balada do Atlântico", em 1989 "O Barco e o Sonho", em 1992 "Mau Tempo no Canal", em 1995 "O Feiticeiro do Vento", em 1996 o "Pepe Fotógrafo e as Valsas do Mundo" e em 1998 "7 Cidades".
Para além desta faceta de realizador José Medeiros tem mantido uma actividade regular como músico e participou como autor e/ou intérprete em vários projectos discográficos, como por exemplo o CD "Caminhos" de Dulce Pontes e o CD "Alma" soa Ala dos Namorados em 1996, o CD "Encontros" de João Loio e o CD "Voz e Guitarras" de Vários artistas em 1997.

Recentemente redescoberto como cantor e compositor, José Medeiros pôs de pé o projecto "Cinefilias e outras incertezas" que dá nome ao seu espectáculo e também ao CD editado em 2000.
No palco, dão corpo a este projecto a música, a poesia, a voz poderosa, profunda e rouca de José Medeiros, os músicos que normalmente o acompanham: Carlos Frazão - piano; Paulo Andrade - guitarras e percussões; Mike Ross - contra-baixo e tuba; João Lima - flautas, saxofones e clarinete e por vezes outros músicos convidados: João Loio - voz. Guitarra; Minela - voz, guitarra e percussões."

In: http://attambur.com/Noticias/20041t/tornaViagem_JoseMedeiros.htm


Esta é uma pequena homenagem a este grande homem. Versátil que faz com a mesma mestria a realização das excelentes séries como a letra e música das músicas que magistralmente e como ninguém intrepreta.

22 de setembro de 2005

Eu tenho um sonho!

Eu tenho um sonho!

“Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.
Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar juntos à mesa da fraternidade.Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo o estado de Mississipi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado num um oásis de liberdade e justiça.
Eu tenho um sonho que minhas quatro crianças vão um dia viver numa nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu carácter. Eu tenho um sonho hoje!
Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!
Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas serão aplanadas, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.”
(Martin Luther King)

Eu também sonho! Sonho com esta fraternidade com que Martin Luther King sonhou e por causa do qual foi assassinado. Se lermos com atenção este excerto do discurso, e nem é precisa muita, veremos que ele está recheado ou, melhor, é a citação quase à letra de passagens da Bíblia: o Leão e o cordeiro comerão juntos.

Sempre me tocou e fundo a figura extraordinária deste Pastor que deu a vida pelo ideal da igualdade e da paz num país de maioria branca maioritariamente racista. Chorei quando Luther King foi assassinado, chorei quando Jonh Kenedy também o foi. Nessa altura a informação que tínhamos era da grande figura de democrata que a “democracia” ocidental queria impor desse governante americano. E chorei, como chorei, quando faleceu um dos maiores Papas do Sec. XX o bondoso, o, de facto, Santo João XXIII.

Mas voltando ao Mississipi, eu tenho um sonho de muitos anos que se desfez, ou quase. O de ir a Nova Orleans, o de ver passar e depois integrar-me num funeral. Os funerais lá eram, serão de novo, espero, cortejos de dor, mas uma dor com esperança, em que a música que adoro, os Blues, carpe a partida do ente querido mas é transbordante da Esperança do encontro nos átrios da casa de Deus Pai onde todos seremos iguais e felizes.

Eu tenho um sonho! E este sonho irá concretizar-se porque tenho Esperança.

Tomo a liberdade de vos ler excertos da crónica de Daniel de Sá editada pela revista Diário Insular este fim-de-semana:

“Deus não se passeou sobre as águas de Nova Orleães contemplando a sua vingança. Só uma mente pérfida ou mal formada é capaz de imaginar que o fez. Se para crentes há possibilidade de perdão quando se fala da lei de Deus, a Natureza não perdoa nunca. No entento não foram os “pretos” que a habitavam que construiram Nova Orleães abaixo do nível do lago Pontchartrain, do Mississipi e do próprio oceano. Foi a drenagem dos pântanos à volta, decidida por especialistas não adivinhos ou pelo menos pouco previdentes, que fez baixar o solo até o transformar em armadilha mortal."
(...)

E conclui Daniel de Sá:
"É lamentável que haja quem tenha visto na agonia de Nova Orleães apenas um motivo para declarar, no orgulho inútil da pequenez mental, que a América tem pés de barro e lama. Mas conforme o “Eclesiastes” os pensamentos provam o homem e as palavras revelam o seu coração. Ou, como António Gedeão, as lágrimas daquelas gentes são feitas de água e sal como as nossas.
Deus decerto não castigou a cidade. E se alguma coisa tiver a ver com aquilo, talvez seja para permitir que os risos e os Blues voltem depressa às ruas de Louis Armestrong.”

Abraços marienses
Santa Maria, 19 de Setembro de 2005

Ana Loura

21 de setembro de 2005

Eu também canto...e bem alto


La solitude ça n'existe pas
Paroles: Pierre Delanoë. Musique: Gilbert Bécaud

La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas

Chez moi il n'y a plus que moi
Et pourtant ça ne me fait pas peur
La radio, la télé sont là
Pour me donner le temps et l'heure
J'ai ma chaise au Café du Nord
J'ai mes compagnons de flipper
Et quand il fait trop froid dehors
Je vais chez les petites sœurs des cœurs


La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas


Peut-être encore pour quelques loups
Quelques malheureux sangliersQuelques baladins, quelques fous
Quelques poètes démodés
Il y a toujours quelqu'un pour quelqu'un
Il y a toujours une société
Non, ce n'est pas fait pour les chiens
Le Club Méditerranée

La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas
Tu te trompes, petite fille
Si tu me crois désespéré
Ma nature a horreur du vide
L'univers t'a remplacée
Si je veux, je peux m'en aller
A Hawaii, à Woodstock ou ailleurs
Et y retrouver des milliers
Qui chantent pour avoir moins peur

La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas

A solidão não existe(tradução livre)

Na minha casa existo apenas eu
No entanto isso não me faz medo
A rádio e a televisão estão aqui
Para me darem o tempo e as horas
Tenho a minha cadeira no Café du Nord
Tenho os meus parceiros de flipper
E quando faz demasiado frio lá fora
Vou às irmazinhas dos corações

A solidão...

Talvez ainda para alguns lobos
Alguns infelizes javalis
Alguns baladeiros, alguns loucos
Alguns poetas fora de moda
Exista alguém para alguém
Exista sempre uma sociedade
Não, não foi criado para os cães
O Club Mediterranee

A solidão...
Enganas-te, menina
Se me imaginas desesperado
A minha natureza tem horror ao vazio
O universo substituiu-te
Se eu quiser posso ir-me embora
Para o Hawai, para Woodstock ou outro lado
E lá encontrarei milhares
Que cantam para terem menos mêdo

A solidão...

Os meus três filhos estão fora de casa, fora da ilha para estudarem...

Eu, também, por vezes canto...e bem alto...

10 de setembro de 2005

"O rio da minha aldeia"

















O Rio da minha aldeia

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai
donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.




Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos



Pois o Ave é que é o rio da minha aldeia, Azurara

Até há quase 25 anos, tanto tempo, o Ave fez quase diariamente parte da minha existência.
Da casa onde nasci o Ave entra-nos janelas adentro com as traineiras descendo madrugada em direcção à foz e voltando mais tarde adornando de peixe fresco.

Penso que terei aprendido a nadar entre o mar e o rio. Nos fins de tarde quando o meu pai regressada va Fábrica de Mindelo (encerrada há muitos anos "para balanço" e este tema dará "panos para mangas"), vinha na sua Zundapp e mais tarde no seu NSU e nós já estávamos equipados à maneira e ala para a junqueira ou para o sopé do Monte de Sant'Ana devidamente acompanhados pelo Leão e era tudo para a água, uma festa. Tivemos um barquito a remos que estava fundeado lá e era ver o Júlio e o Alexandre a lançarem-se em altos mergulhos. Eu sempre fui medrosa e nunca me aventurei nesses voos.

Comemos muito peixe que o meu Velho pescou nas águas, então límpidas, do Ave. Aos Sábados ele saia cedinho com a cana e o cesto da pesca a tiracolo e o Leão colado às suas pernas. Dizia o meu Pai "há quem tenha um cão de caça, eu tenho um cão de pesca”. Muito peixe comemos... Ele chegava com o cesto cheiinho de Robalinhos, Tainhas e Pintas que nós amanhávamos no tanque que havia no coberto. Era um fartote de peixe fresco


Hoje o rio da minha aldeia está morto, as águas putrefactas, fétidas. Ainda há quem lá pesque, mas não creio que esse peixe lá pescado faça a felicidade de qualquer família. A ganância, a fúria do lucro, o desrespeito pelas gerações vindouras matou o rio da minha aldeia.