28 de julho de 2008

Última crónica Ilha-Mãe

Prometo que irei colocar a capa do livro num tamanho "decente" mal chegue a casa
Bom dia!

A decisão que me foi anunciada informalmente na sexta, 19 de Julho, do fim das minhas crónicas não foi propriamente imprevista pois a Ana Paula já de há um ano a esta parte me dizia que a antiga direcção queria remodelar a grelha de programação e nela não haveria lugar para as minhas crónicas. O certo é que o me ter sido dado conhecimento assim a sangue frio no meio do Festival de Blues quando o convite para as fazer foi rodeado de certa formalidade, surpreendeu-me pois ainda não há nova grelha e ao que consta só haverá em Outubro. Mas fui instada a escrever a última e, com atraso por questões de doença para cumprir a data imposta, é isso que estou a fazer: a escrever a minha última crónica. Os argumentos para a cessação da realização das crónicas colhem, pois como se lembrarão e eu expliquei na primeira crónica lida no dia 01 de Março de 2004 o convite foi feito telefonicamente mas apesar da relutância da minha parte foi motivo de uma reunião com todos os convidados, na altura Nuno Barata, Emanuel Soares, Sérgio Ferreira, Nélia Figueiredo que não compareceu à reunião e acabou por ser substituída no projecto por José Humberto Chaves que desistiria passadas poucas semanas e eu para se definir o que seria a Crónica do Dia e “sortear” o dia de cada participante. O objectivo da “Crónica do dia” seria a apresentação por parte de cada um dos representantes de cada uma das formações políticas mais significativas em Santa Maria dos seus pontos de vista sobre a realidade mariense e regional. Pena que depois da desistência de José Humberto Chaves tenham, um a um, desistido os restantes cronistas e que no final de Junho de 2004 (as últimas crónicas publicadas por eles no Blogue “A Crónica do dia” têm data de 22 de Junho) apenas eu teimasse em honrar o compromisso. Nem sempre foi fácil e durante os dois anos de “ausência” no continente tornou-se particularmente difícil acompanhar o “pulsar da Ilha” pois cada vez que eu perguntava a alguém “E então, novidades?” a resposta era quase invariavelmente “O costume, nada” O certo é que eu passado uns dias vinha a saber que afinal tinha acontecido uma reunião internacional sobra a importância da Ilha durante a Segunda Guerra, que o livro Ilha-Mãe de Daniel de Sá tinha sido lançado e muitos outros eventos… Mas muitas vezes tive a angustiante experiência do vazio diante da “Folha em branco” do monitor do meu computador. Mas lá fui cumprindo e gravando a “Crónica do dia hoje com assinatura de Ana Loura” para agrado de alguns e o desagrado de outros, tendo estes sempre a hipótese de mudarem por 10 minutos de estação radiofónica para não terem de gramar uma coisa que na sua opinião “já ninguém pode ouvir, acabe com as crónicas” como alguém teve a coragem ou a lata de me dizer publicamente. Acontece que, chegado o dia da última crónica, tenho a certeza de que faltou dizer tanta coisa, tanto eu tinha ainda para partilhar. Mas quando nos dizem que é a última e nos dão a hipótese de nos despedirmos temos de escolher entre esses temas que gostaríamos de partilhar um que nos seja querido. E, nada mais querido do que a própria Ilha, Santa Maria Ilha-Mãe onde vivo, onde nunca, apesar da minha ausência deixei de viver “Porque Santa Maria é a ilha dos cheiros fortes, intensos, de tal maneira que não faria falta ver de olhos abertos para saber onde se estava. O próprio Raul Brandão deu por isso e chamou-lhe “a ilha que cheira bem”. E não eram só os cheiros das construções em que dominava a madeira, a chapa e o papelão. Eram sobretudo os aromas da terra amodorrada pelo calor. Do poejo, da macela, da murta, das giestas, das acácias, dos eucaliptos, dos pinheiros. Da vida.”…” O Terminal era o passeio dos pobres. O deslumbramento de ver oiros e pratas, relógios caros, gente estranha que chegava e partia falando quase todas as línguas do Mundo. Os elegantes Super Constellation da TWA, os sólidos DC6 da Pan American, o belo azul da KLM, as cores garridas da Guest Aerovias. E a VARIG, a Iberia, a Air France, a Avianca... O sonho ao alcance do olhar.”
“Não sei a razão que levou a criar-se a lenda, em que muita gente acredita, que estas ilhas foram povoadas pela escumalha do Reino. Fidalguia da melhor, a começar por Gonçalo Velho Cabral, comendador de Almourol, a quem se juntaram alguns familiares seus e outros de elevada estirpe.
Quanto aos supostos criminosos exilados, houve por exemplo uma menina de dez anos, duvidosamente acusada de ter matado uma criança! Aos grandes malfeitores destinava-se a forca, ou decepava-se-lhes algum membro ou parte dele; uns anos mais tarde, eram mandados para S. Tomé, o pior dos desterros. Estas penas eram consideradas tão rigorosas que os donatários, ou os capitães que os representavam, não tinham o direito de aplicá-las, apesar de lhes ser atribuído o poder de fazer justiça.
Entre os povoadores naturalmente que se contavam muitos pobres também, destinados a arrotear, lavrar, semear e colher, para que houvesse abundância para todos, como cedo começou a haver. Mas provavelmente terão sido aqui menos pobres do que eram no Reino.”
“Tenho saudade desses impérios, que têm quase a idade do povoamento da ilha. E que por isso mantêm a memória de uma receita culinária de antes da chegada das especiarias orientais. A carne, cortada em grandes pedaços, é temperada apenas com sal e cozida durante várias horas. Depois, com o caldo ainda meio fervendo, põe-se-lhe dentro hortelã e endro. E assim se faz a carne mais saborosa de quantas já provei até hoje! Será só saudade?”
“Uma das recordações mais fortes dos meus impérios de Santa Maria são os foliões. No aspecto, em pouco diferem dos companheiros da equipagem, com o lenço colorido à volta do pescoço. Um toca o tambor e outro os ferrinhos ou uns minúsculos címbalos, indo ao meio o porta-bandeira. Eles merecem todas as atenções, nada acontece sem a sua presença antes do dia da função e, durante esta, de manhã até à noite ouve-se aquela toada mourisca que vão como que ronronando sempre. De nada serve aclarar-lhes a voz de pouco a pouco com gemadas em vinho e açúcar, servidas numa tigela. É mesmo assim a tradição, só se percebe de quando em quando um “Senhor” ou um “imperador”, mas pouco mais. Nem é preciso. A presença da folia é fascinante. Eu era capaz de ficar horas seguidas a olhar para os três foliões, a ouvi-los sem os entender, e mesmo assim nunca me cansava.”
“Nesta ilha a paisagem é como que um resumo da geografia universal. Será difícil encontrar outro pedaço da Terra que, em menos de cem km2, seja tão variado.”
“Até as chaminés mais antigas não se erguem muito acima dos telhados. As redondas vão um pouco mais alto, na sua elegância de navio a vapor. E pensa-se que foram brasileiros de torna-viagem que, para a sua construção, se inspiraram nas chaminés dos transatlânticos que os traziam de novo à ilha. Por isso lhes chamam chaminés de vapor. Em Santana, no meu tempo, haveria apenas umas três ou quatro. O que quer dizer que todas as outras casas seriam provavelmente ainda do século XIX ou princípios do XX, mantendo as chaminés de mãos-postas, como que pedindo aos Céus a bênção para o lar, o forno e o fumeiro.
Essas chaminés “de vapor “ provocaram uma interpretação errada que ainda hoje persiste, mesmo entre pessoas cultas. Bastaria saber a época a que pertencem para se pôr de parte a apressada tese. Por causa da sua ligeira parecença com as do Algarve e do Alentejo, houve quem as visse como herança das gentes do Sul do Reino. Coincidência somente.”
” Esta praia merece que a felicidade a contemple. Tão bela é que Luís Teixeira lhe chamou “Plaia Hermosa, no castelhano arcaico que consta em todo o mapa que fez dos Açores em 1584.
Que ela é formosa percebe-se logo à primeira vista… Desde 1986 a Praia deixou de pertencer apenas aos marienses. O Festival Maré de Agosto transformou-a em património açoriano e nacional, tornou-a conhecida um pouco por quase todo o Mundo”

“A cor branca dessas casas arquitecturais sempre se deveu à cal da própria ilha, sendo os seu fornos uma presença frequente na paisagem. Mas o calcário e a abundância de fósseis marinhos provocaram nos visitantes apressados uma interpretação errada. Até em livros de estudo chegou a constar que Santa Maria não era de origem vulcânica como as outras ilhas dos Açores. Puro engano, como sabes. O que acontece é que ela é de formação muito mais antiga. A sua plataforma esteve submersa durante quatro milhões de anos.”
“Muita gente da que procurou uma vida decente em Santa Maria não conseguiu encontrá-la. E a riqueza que se passeava de um lado para o outro do Atlântico passou lá um dia mais opulenta ainda. 26 de Outubro de 1958. O primeiro voo intercontinental de um Boeing 707 da Pan American. Metade da ilha foi apreciar o colosso que vinha destronar os Clipper e os Constellation. Ficámos todos maravilhados. Ninguém se apercebeu de que o gigante a jacto anunciava o princípio do fim da importância da ilha como ponto de ligação entre dois mundos. Dos mais de treze mil habitantes, a maior parte dos que não eram de lá foram voltando para as suas terras. E foi igualmente o descalabro da emigração, até aos muito menos que seis mil de agora.”

Terminei as minhas crónicas (cerca de 200) da melhor forma, citando o livro “Santa Maria a Ilha-Mãe” do Escritor, de coração mariense como o meu, Daniel de Sá. A minha homenagem ao escritor de quem tanto gosto, à Ilha, aos homens que a descobriram, a povoaram, a construíram, cá vivem, a amam.

Foi um passo difícil de dar o ter começado a “cronicar” como digo do que escrevo, o “vício” ficou e certamente continuarei a escrever sobre a Ilha, a minha Ilha: Santa Maria, no meu blog Mulheres de Atenas criado, exactamente, para as guardar.

Forte abraço mariense a todos, aos que gostam e aos que não gostam de ouvir, mas mesmo assim me ouvem

Ponta Delgada, Rua do Calhau, 19

Ana Loura

17 de julho de 2008

Cão de carroça

Esta estóriazinha é dedicada ao JL que me contou o tema base há anos, à minha irmã Branca que protestou há dias por ter vindo aqui e não encontrar nada de novo e a uma pessoa de quem gosto MUITO e com quem partilho o que posso partilhar da minha vida. Adorei ter escrito estas linhas.


imagem tirada da net, uma carroça sem cão
Cão de carroça

Ainda se vêem pelas estradas de S. Miguel carroças puxadas por cavalos ou mulas onde pequenos lavradores (os grandes já utilizam tractores ou camiões) transportam as bilhas com o leite do pasto aos postos de recolha das fábricas. É raro não se verem por baixo das carroças caminhar pelo menos um cão de fila que de vez em quando sai do seu lugar para dar uma volta, alçar a perna contra uma das árvores da berma da estrada, cumprimentar o companheiro que guarda um dos pastos por onde passa ou apenas para passear sem ter como céu o fundo da carroça. São chamados Cães de carroça. Não consta que algum aquando das suas saídas higiénicas ou sociais não tenha voltado para debaixo da carroça que lhe servia de céu pelo que se construiu o mito de que “cão de carroça volta sempre”.

Contou-me um amigo há anos que um colega de trabalho dava as suas “facadinhas no casamento”, “pulava a cerca”, tinha os seus devaneios amorosos extra conjugais. A esposa traída, que acabava quase sempre por saber que “andava moira na costa” pois o marido “andava num sino”, a pentear o cabelo pela terceira vez pela manhã, a dar-lhe o segundo beijo de despedida com ar ausente e sorriso aparvalhado nessas alturas de paixão efémera mas infinita enquanto durava, dizia a quem lhe vinha bichanar, “na melhor das intenções” que fulano, amigo de sicrano tinha visto o infiel marido enlevado na companhia da ruiva flamejante ou da morena escultural no restaurante tal ou no bar da moda, ou quando no cabeleireiro a manicur entre limadela de unha e pincelada de verniz e a meia voz, o suficiente para que todo o salão ouvisse, comentava que aquela amiga do peito da esposa naquele mesmo dia de manhã tinha confidenciado à menina que chegava os rolos à outra menina que lhe fazia a mise que o marido da sua melhor amiga, e toda a gente sabia a quem ela se referia, estava na véspera naquele recanto da Praia do Pópulo de mãozinha dada com a cunhada do Dr. Antonino (nome fictício, claro). A esposa sorria e dizia: “o meu Armando (nome fictício, claro) é cão de carroça, dá as suas voltinhas mas volta sempre”. Um dia Armando não voltou! Encontrou outra “carroça”mais jovem, pele nacarada e macia, sorriso meigo, gargalhada espontânea sempre que ele contava uma tontice qualquer, a servir-lhe de céu estrelado e azul com cânticos de anjos acompanhados de harpas harmoniosas e sininhos celestiais, mesa farta de pitéus refinadíssimos e cascatas do melhor champagne francês. Diz quem sabe que Armando (nome fictício, claro) “esgalhava” ao volante do veículo que pilotava para que o dia de trabalho terminasse rápido e poder aninhar-se debaixo da sua nova carroça com um sorriso ainda aparvalhado mas feliz.

A esposa traída continuará à espera que se cumpra o mito e o seu "cão de carroça " volte. Espero que bem sentada numa boa almofada.

30 de junho de 2008

Cidadania segundo Laborinho Lúcio
















Bom dia!

No último Sábado (28 de Julho) pelas 11:30 tomei conhecimento, por mero acaso, de que a AJISM iria levar a cabo às 15 horas na igreja da Nossa Senhora das Vitórias uma conferência sobre cidadania. Lá fiquei eu indignada por ser obra do acaso o ter tomado conhecimento e ainda por cima por ter, também, sabido que tinham sido distribuídos convites formais a algumas pessoas e colocados cartazes nos locais habituais, que pelos vistos não são os que eu frequento. Mas bendito acaso que me fez ter conhecimento do que se iria realizar pois o que se passou era imperdível e só lamento que a sala não tivesse sido pequena e não estivesse Santa Maria em peso a ouvir falar sobre um tema que interessa a todos. Mas vou tentar fazer a história que sei: A AJISM elaborou há meses um inquérito onde, em resumo, colhia elementos que espelhassem a participação dos inquiridos nas acções relacionadas com o exercício da cidadania, ou seja, se votam, se reclamam quando mal atendidos, se participam em acções de carácter cívico. O que aconteceu no Sábado foi o tirar de conclusões desse inquérito pelo Sociólogo da Universidade dos Açores Dr. Álvaro Borralho que disse que em Santa Maria acontece como no todo nacional em que a “Cidadania é difusa”, há uma fraca participação dos cidadãos embora a maioria dos inquiridos, 76% saiba o que é cidadania mas falta “convicção à sua prática” e deixam nas mãos dos outros essa prática pois achando que se devendo reclamar e reivindicar direitos raramente o fazem, que há um sentimento colectivo de que a participação faz falta, mas por outro lado é notório o aumento da abstenção nos actos eleitorais que em Santa Maria é a mais elevada do arquipélago. Concluiu também que das três vertentes da cidadania, social, política e económica, aquela que é mais reconhecida é a política. Deixou-nos o Dr. Borralho uma frase que é para ser pensada, e aplicada em todas as vertentes “A participação leva à participação”

A “estrela” da tarde, aquela que, parafraseando Daniel Gonçalves fez ser dia de Natal em pleno Junho (para mim foi Natal, Carnaval e quase Páscoa) foi o Senhor Juiz Conselheiro, ex Ministro da República para os Açores Dr. Laborinho Lúcio. Foi para mim um privilégio ter estado diante de alguém que tanto admiro pela lucidez e brilhantismo de discurso. Como costumo dizer só perdeu quem não esteve presente. Foi tanto e tão importante o que foi dito que resumir em poucas linhas é um trabalho difícil e deixar-vos frases desgarradas, fora do contexto pode ser um incorrecção. Mas vou deixar-vos algumas que de per si contêm conceitos fundamentais: A questão fulcral da apresentação de Laborinho Lúcio centrou-se na “Cidadania activa”(Uma ilha a pensar) frase de toque do cartaz da AJISM que eu apenas, com pena, vi nas Vitórias
Depois de ter atirado à queima roupa os dados estatísticos que todos nós conhecemos mas teimamos em esconder com a peneira de que apenas 1,2% do rendimento mundial está nas mão de 3 mil milhões de seres humanos e que 80% do rendimento mundial está na mão de apenas”meia dúzia” de privilegiados , Laborinho Lúcio afirma:
- A exclusão é uma limitação ao acesso à cidadania”
- A exclusão retira o direito a desenvolver as capacidades que potenciam a intervenção
- Só sou cidadão quando projecto a cidadania no outro
- A pobreza é violação dos direitos humanos
- Substituir o pensamento único pelo pensamento crítico
- A escola tem que formar, também, para a desobediência crítica
- É preciso restaurar uma utopia da política de verdade e respeito pelo valor do outro e reclamar profundas transformações políticas
- Pensar globalmente e agir local
- Que o nosso discurso seja de coesão junto dos que necessitam
- A cidadania activa coloca a tónica no lado da ética e da responsabilidade

Conclusão, tirada por mim, claro:
Fundamental olharmos à nossa volta, a nossa rua, o nosso bairro, a nossa ilha e colocarmo-nos no lugar do outro que precisa e sermos activamente solidários, empenharmo-nos nas associações, fazermos trabalho voluntário, participarmos nas instituições, não nos demitirmos dos nossos direitos de exprimirmos as nossas opiniões, do nosso direito/obrigação ao voto.

E acrescento: a cidadania deveria ser aprendida, fundamentalmente, em casa pois é aí que se forma a essência do ser humano. Devemos ensinar os nossos filhos a partilhar entre si, a respeitarem os que vivem na mesma casa, o respeitarem os que vivem na mesma rua a serem com eles solidários e intervenientes. O consumo e o acesso a bens de consumo não essencial de uma forma cada vez mais fácil permitem que numa casa onde há três crianças cada uma tenha a sua televisão, a sua consola de jogos pelo que deixou de ser necessária a partilha dos objectos. Temos de repensar com urgência a forma como educamos os nossos filhos, não nos podemos demitir dessa maneira de exercermos cidadania pois o primeiro outro em quem devemos de projectar a nossa cidadania são os nossos filhos.

Não quero deixar de referir a presença prestigiante do Senhor Juiz Conselheiro, Representante da República para os Açores Dr. José Mesquita, que patrocinou este evento e na introdução que fez referiu Daniel de Sá, escritor açoriano cuja vivência durante infância e juventude em Santa Maria fez um apaixonado da Ilha-Mãe título do seu livro onde descreve com sabor a sopas de Império e biscoitos de orelha, cheiro a poejo, macela, murta e acácias essa vivência na nossa ilha.

Como acabaram de ouvir/ler, esta foi uma tarde imperdível.

Abraços marienses

Santa Maria, 30 de Junho de 2008

Ana Loura

2 de junho de 2008

Estou em casa




Bom dia!



Há quem diga que nunca devemos trilhar caminhos que já trilhámos, mesmo que tenhamos sido felizes. Pois cá estou eu a trilhar de novo os caminhos da Ilha. Uma vez ilhéu toda a vida ilhéu. Não foi fácil voltar, virar costas às coisas de que eu lá gostava, deixar os meus Pais, uma das razões que me tinham feito partir. De qualquer forma o meu ir foi um ir a prazo, apenas regressei um pouco antes do que previa. Vim bem, vim tranquila, vim feliz. Gosto da ilha e como qualquer ilhéu a minha vida é feita de partidas e chegadas. Esta foi mais uma. Agora, é preciso colocar no sítio as coisas que levei e trouxe e algumas que apenas trouxe; retomar algumas das actividades que de alguma forma deixei em suspenso, embora tenha ao longo deste tempo mantido a fervilhar tudo o que fazia: sempre que vim ensaiei no grupo coral, raramente falhei na escrita das crónicas, apesar de ao longe, acompanhei a actividade política dos meus camaradas de partido e companheiros da CDU; fui pedindo notícias do que era feito na ilha, fui tendo conhecimento das novidades através de conversas telefónicas com amigos e através do blog do Marco Coelho. A bem da verdade quase não saí de cá.



Já cheguei fez esta madrugada uma semana, mas logo na Terça fui para S Miguel para uma acção de formação pois a única mudança de fundo na minha vida neste giro-flé foi ter deixado de exercer um cargo de Assessora no trabalho e ter passado a executar funções que chamamos de TTA “de linha”, ou seja a reparar e a manter os equipamentos usados para que os aviões aterrem em segurança no nosso aeroporto e os usados para controlar o espaço aéreo do Atlântico Norte, área sobe a responsabilidade de Santa Maria e que pela decisão da Assembleia da República, luta em que o Partido Comunista teve um papel fundamental, assim se manteve.



Tendo chegado Sábado à noite logo me quis inteirar se haveria no Domingo algum Império. Como vos contei, no dia de Pentecostes preparei sopas com pão que tinha levado de cá. Pão, endro e hortelã, carne comprada lá, para de certa forma e para além da Eucaristia, louvar o Espírito e celebrar uma das nossas mais arreigadas tradições. Mas Império mesmo é na copeira. E ontem, a meio da tarde, subi os Picos e pus-me na bicha, que felizmente não era muito grande e entrei na segunda mesa. Os Impérios para além do seu principal objectivo do “pagamento” de promessas (como se o Espírito cobrasse as bênçãos que dá…mas isso é tema sério para reflexão obrigatória noutro momento), como dizia, para além da componente de “pagamento” de promessas, o Império tem uma função social indiscutível pois é na bicha que encontramos muitas das pessoas que raramente veríamos não fossem os Impérios. E eu vi muita gente que já não via há muito tempo, abracei, conversei, ri-me com as estórias contadas. Acho que foi na bicha do Império que eu tive a certeza de que ESTOU EM CASA.



Abraços marienses

Santa Maria, 2 de Junho de 2008

Ana Loura

19 de maio de 2008

Eu tenho saudades de ti, Tarôco















Bom dia!
O meu nome é Tarouco ou Tarôco. A minha Mãe chama-se Pequenina, uma gata que a nossa Dona encontrou numa rua de Ponta Delgada quando vinha para casa (a casa de lá, onde ela vive num quarto) para almoçar com a minha Avó. A minha Avó, não é mesmo minha avó, mas é assim que ela gosta que lhe chamemos. A nossa Avó estava em Ponta Delgada de passagem, como muitas vezes, tinha cozinhado o almoço e estava à espera da nossa Dona que estava atrasada, foi espreitar à porta e viu a nossa Dona a descer a rua com uma coisa ao colo e pensou: pronto…lá vem mais um gato…Ninhas, mais um? Mãe, achas que eu podia passar à frente e não a recolher, tadinha, estava a miar desesperada debaixo de um carro. Mas Ninhas, já temos tantos, já lá tens o Charlie (o Charlie também tinha sido recolhido pela nossa Dona à porta da casa onde ela vivia na altura e depois, quando a nossa Dona se mudou ele veio para a casa da Família). Mãe, eu não era capaz…ela miava tanto! E vai ficar aqui. Vou dar-lhe banho, está cheia de pulgas e morta de fome, temos que arranjar alguma coisa para ela comer. E assim a minha mãe encontrou um lar com cama quente e comida à descrição onde é muito feliz.

A minha Mãe cresceu e começou q frequentar os telhados e quintais dos vizinhos, conheceu alguns gatos muito simpáticos e passados uns meses, ela tinha vindo passar as férias à casa da Família, como sempre aconteceu, e numa mudança de lua nós nascemos. A nossa Avó diz que nunca viu ninhada tão linda e podem acreditar que ela já viu dezenas de ninhadas, mas a nossa para ela era a mais linda. Um dos nossos irmãos morreu à nascença, não se sabe bem porquê, mas nós os quatro éramos todos lindos. A nossa Dona estava tão feliz, não queria dar nenhum de nós. Nós fomos crescendo e ela foi escolhendo os nomes: a minha irmã sempre foi elegante, pêlo sedoso, comprido e colorido, malhado de cinzento, branco e cor-de-rosa, parece uma Princesa e foi esse o nome que lhe foi dado, o meu irmão, um Senhor gato, gordo, meigo cinzento de pêlo curto foi dado a uns amigos florentinos que lhe chamaram Norberto e eu, um gato quase humano, que me atiro para o pescoço das pessoas de quem gosto, me agarro aos ombros como lapa à rocha, ronróno dengoso, faço olhos de espanto e sou meio lerdo de entendimento a minha Dona chamou-me Tarôco ou Tarouco. Ela adora-me, por vezes fica um pouco farta de mim pois sou mesmo uma lapa, mio à porta do quarto dela porque quero ir para a cama deitar-me em cima do peito dela e dormir a ronronar, ela diz que sou chato, mesmo chato e Tarôco “memo”. Nós somos todos muito felizes em casa da nossa Avó. Ela não tem estado muito cá, mas tem uma amiga que vem cuidar de nós e não nos falta nada. Há dias a nossa irmã teve 5 gatinhos entre as ervas do jardim e a nossa amiga pegou em todos e levou-os para dentro de casa para que ficassem abrigados. Como vos digo somos todos muito felizes.

Ontem a minha Dona veio passar o fim-de-semana a casa. Chegou já era muito tarde, chamou por nós, mas eu andava a vadiar, ela foi dormir e hoje quando ia a sair de casa eu estava morto em cima do passeio, junto à entrada para o quintal. Um carro tinha passado…Os carros passam quase sempre naquela rua como se fosse a auto-estrada por onde a minha Avó tem que passar para ir para o trabalho, a uma velocidade que não dá hipóteses de pararem se houver um animal ou uma criança a atravessar e pronto, já são uns quantos gatos e cães que morremos naquele lugar. A minha Dona chorou muito e a nossa Avó também quando soube que eu nunca mais vou saltar para o pescoço dela, agarrar-me como uma lapa aos ombros, ronronar e olhar para ela com olhos de espanto. A minha Avó diz que está muito triste, está a passar para o papel esta minha carta com as lágrimas a correrem pela cara, ela vai voltar para casa e diz que não se quer arrepender de voltar antes de ter chegado e não sabe como há-de poder resolver o assunto do excesso de velocidade na nossa rua, é que em menos de um mês fomos mortos dois dos seus gatos e ela pensa que se fosse uma criança os carros batiam também, acha que há falta de consciência de quem passa numa rua dum bairro como se passasse numa auto-estrada”

É, eu tenho saudades dos teus olhos de espanto, eu tenho saudades dos olhos cada um da sua cor do Pirata, eu tenho saudades de cada gato de cada cão assassinados por condutores que pensam que são donos da rua, donos do mundo.

Eu tenho saudades de ti, Tarôco.

“O destino dos animais é muito mais importante para mim do que o medo de parecer ridículo”
Émile Zola grande escritor Francês dos finais do Sec XIX

“Chegará o dia em que o homem conhecerá o íntimo de um animal. E, nesse dia, todo o crime contra um animal será um crime contra a humanidade”
Leonardo Da Vinci pintor, escultor, arquitecto, físico, engenheiro, botânico e músico do Renascimento italiano.

“Os animais foram criados pela mesma mão caridosa de Deus que nos criou… É nosso dever protegê-los e promover o seu bem-estar.” Madre Teresa de Calcutá missionária católica albanesa, nascida na República da Macedónia e naturalizada indiana beatificada pela Igreja Católica.

Árvore, 19 de Maio de 2008
Ana Loura