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Mulheres de Atenas: Julho 2005

12 julho 2005

Ora cá vou eu...


Ora cá vou eu continuar a minha aventura internética que começou há quatro anos ao entrar pela primeira vez num site que no caso e por acaso foi a Canção Nova. Muitas coisas se passaram na minha vida que estão associadas a esse meu primeiro click. Tenho conhecido muitas pessoas que se tornaram muito importantes para mim e outras que nem tanto. O certo é que as que recordo são as importantes e pela positiva, algumas acabaram por fazer parte do meu dia-a-dia de tão importantes que são.
Este é o primeiro blog que vejo nascer das minhas mãos com a preciosa ajuda da minha filha Ângela. Vamos a ver se terei paciência para o "alimentar" regularmente.
Nele irei incluir as crónicas que, semanalmente, escrevo para ler aos microfones do Club Asas do Atlântico. Incluirei também outros textos e reflexões ou simplesmente fotos da minha autoria. Em todas as fotos que não sejam da minha autoria isso será mencionado.
Desejo as boas vindas a todos os que me dêm a honra da sua visita.
Beijos
Ana

04 julho 2005

TRADIÇÃO

Tradição – palavra de origem latina (tradictio- Õnis- transmissão) Transmissão de valores e de factos históricos, artísticos e sociais, de geração em geração através da palavra ou do exemplo. Conjunto de factos, crenças, valores e costumes que constituem a memória colectiva de uma comunidade, prática quotidiana. A tradição pode ser oral, quando a transmissão é feita através da oralidade e escuta ou tradição escrita, transmissão de valores feita através de documentos escritos e da sua leitura. In: Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa editora Verbo.

Em Santa Maria há práticas e coisas que são tradição: o caldo de nabos, bolo na panela que eu adoro e a minha falecida sogra tão bem preparava, os molhos, os biscoitos de orelha, as chaminés das casas antigas, dizer bei Santa Bárbara ou bei Santa Ana, estou minente e outras expressões, as festas em honra de alguns santos: Santo Amaro com a oferta de bolos em forma de mãos, pés e outras partes do corpo a precisarem de conserto, a Santo Antão que protege os nossos animais de doenças e pragas e em que se costuma leiloar animais; os festejos dos dias de amigos, amigas, compadres e comadres que antecedem o Carnaval e os Impérios.

Outras coisas há que não são nem nunca serão, quanto a mim e por mais que alguns teimem em dizer o contrário, tradição em Santa Maria e estou a falar, é claro, das touradas.

Os Impérios são manifestações populares da religiosidade do nosso Povo e têm raízes no Portugal medieval. Trazidos para os Açores pelos primeiros povoadores não deixaram nunca de ser um apoio, conforto em alturas de catástrofes naturais ou mesmo aquando os ataques dos piratas resultando, sempre, no pagamento das promessas feitas nessas alturas de grande aflição com a dádiva das sopas feitas com pão de trigo caseiro, o caldo resultante da cozedura lenta da carne de vaca e aromatizadas com endro, hortelã e nalguns casos com canela. Acompanham estas sopas o delicioso vinho de cheiro produzido na ilha.

À roda daquilo que é a função em honra do Divino, propriamente dita, há uma série de coisas que enriquecem muito esta tradição: a feitura dos pães doces que fazem do Império ser rico ou pobre; o pão da mesa, a rosca, a massa sovada e o pão leve; o cortejo da mudança, em que todos os ingredientes, o pão para as sopas, o vinho, as achas, as panelas, os pães doces que referi, são mudados da casa do Imperador para a copeira. Era tradição esta mudança ser feita utilizando carros de bois enfeitados com papel de seda colorido e cujas rodas chiavam ao rodar num som característico e que juntamente com o estoirar dos foguetes chamava para a rua as gentes a quem eram distribuídos biscoitos à passagem do cortejo. A mudança do império, assim como o cortejo da coroação, o levantar da coroa, todas as cerimónias realizadas nos teatros são “comandadas” pela Folia. Nada se faz sem que a folia o mande fazer numa música de toada caracteristicamente árabe em que um pequeno tambor e dois pratos pequenos em bronze marcam o ritmo.

O Império das Crianças do Aeroporto, em louvor de S. João, é uma tradição recente. Terá, ao que sei, cerca de 50 anos e deve-se a sua existência ao bom coração de uns amigos que em boa hora juntaram uns “provimentos” e deram de comer às muitas crianças que nessa altura havia no aeroporto. Assim nasceu uma tradição: fez-se uma vez e depois repetiu-se tantas vezes que se tornou prática e, portanto, tradição. Foi interrompida esta tradição durante alguns anos, tendo sido retomada quando na Escola Primária do Aeroporto e no âmbito da área escola, as professoras decidiram promover a sua realização para que as crianças a conhecessem e, quem sabe, fosse retomada. Em boa hora o fizeram, pois a tradição foi retomada e nos últimos, creio que, 12 anos uma comissão encabeçada pelo Senhor José João tomou a seu cargo todos os trabalhos de preparação e realização deste Império para que a tradição seja dada a conhecer aos nossos filhos e não morra. Acontece que, ao longo destes anos, tem sido tentado envolver as nossas crianças na realização das tarefas que competem ao imperador, imperatriz, menina da mesa, “beriadores”, mestre-sala e trinchante, no transporte dos estandartes, na realização da mudança e da coroação. Nos últimos anos têm sido dados nas escolas primárias convites para serem distribuídos às crianças no sentido de as sensibilizarem a participar, mas acontece que, cada vez são menos as crianças a participarem e, creio que, se deve unicamente ao desinteresse dos pais em que os filhos participem nestas realizações tradicionais que justifica o facto de as crianças não participarem.

O Império das Crianças está em risco de desaparecer se os pais não prezarem a tradição e não a passarem por palavras e exemplo aos seus filhos.

Eu fui espreitar a praça de touros no Sábado, véspera da tourada oficial, quando se estava a realizar a tourada oferecida às crianças. A praça estava cheia de pais com filhos desde bebés a adolescentes…

Santa Maria está a perder as suas tradições ou a adulterá-las: já não há carros de bois nas mudanças dos impérios. Seria de ou a Câmara Municipal ou as Juntas de Freguesia mandarem recuperar carros que ainda haja e pô-los à disposição de quem faça os Impérios. Seria de as Juntas de freguesia promoverem “cursos” nas férias de Verão onde pessoas “antigas” passassem aos nossos jovens as técnicas de confecção dos nossos comeres tradicionais, dos nossos bordados, das nossas mantas e das nossas cantigas.

O progresso é o futuro, mas a tradição é a nossa identidade, a nossa história.

Abraços marienses
Santa Maria,
04 de Julho de 2005Ana Loura