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Mulheres de Atenas: Março 2011

17 março 2011

Retiro na cidade - 9




A Palavra de Deus

«Feliz o homem que não segue o caminho dos pecadores… antes põe o seu enlevo na lei do Senhor»

Salmo 1, 1-2

A meditação

Nos impasses, a conversão O primeiro salmo fala de duas vias propostas aos homens: a dos justos e a dos pecadores. Neste tempo de quaresma, somos convidados a tomar consciência destes aspectos da nossa vida em que fizemos «uma rota falsa», em que escolhemos caminhos que nos afastaram de Deus, voluntariamente ou inadvertidamente ou por fraqueza, porque fomos «na onda» ou escolhemos um caminho mais fácil ou mais rentável. «Examinemos atentamente os nos­sos caminhos e convertamo-nos ao Senhor. » diz o livro das lamentações (cap 3, vers 40).. É o que faz o filho pródigo que regressa a casa do seu pai, a amante pecadora que vai lavar com as suas lágrimas os pés de Jesus e tantos outros pecadores que Cristo reencontrou.

Como eles, somos convidados a descobrir não apenas as nossas faltas e os nossos pecados, mas também e ainda mais, o amor de um Deus que não nos aferrolha na nossa imagem de pecadores, como o podem fazer os bem-pensantes. Deus ama-nos ainda e sempre e quer dar-nos a sua amizade. É esta dupla descoberta que nos permite, então, que nos convertamos, que nos deixemos regressar para a misericórdia de Deus. Pois o nosso Deus não só espera o nosso regresso, como quer, ele próprio, o nosso reencontro. Ele parte ao nosso encontro. Ele fê-lo na pessoa de Cristo que veio convidar-se para casa dos pecadores que nós somos para que nos descubramos amados e ousemos reconciliar-nos e retomarmos o caminho com ele.

Traduzido de: retraitedanslaville.org

Retiro na cidade - 8



A palavra de Deus

«Parai no vosso caminho e vede; informai-vos sobre os caminhos de outrora e sobre o caminho da felicidade; segui por ele» Jeremias 3, 16

A meditação

Nas encruzilhadas da vida


Nós avançamos na vida como que sobre uma estrada, e são-nos apresentadas várias encruzilhadas, de diversas importâncias, onde devemos fazer escolhas, quer se tratem de escolhas maiores: compromisso no casamento ou a vida consagrada ou a escolha profissional, mas também o assumir de uma responsabilidade, um comportamento ou uma atitude face a uma dada situação. Há escolhas entre diversas coisas boas e outras em que é preciso escolher entre o bem e o mal, mesmo se os caminhos nem sempre sejam assim claros. Nós pressentimos que a verdadeira liberdade não consiste no facto de querer tudo ou de considerar que vale vale tudo, mas escolher e nos empenharmos numa direcção e portanto renunciar tomar outros caminhos que se apresentam também a nós. Por vezes o medo do definitivo e do irrevogável, ou o receio de nos enganarmos e de lamentar o caminho escolhido, ou a dificuldade de renunciar, podem apavorar-nos.


Para ultrapassarmos estes medos, precisamos de ter tempo para parar, medir as nossas forças, perguntar e ouvir os nossos irmãos, os de ontem e também os de hoje, que passaram antes de nós nestas encruzilhadas da vida, escutar o que o Espírito diz à Igreja, confiar nos sinais do salmo 25:« Todos os caminhos do Senhor são amor e fidelidade, para os que guardam a sua aliança e os seus preceitos» e olhar, contemplar Cristo que é o Caminho, a Verdade e a Vida: «ninguém vai ao Pai senão passar por mim» (Evangelho de João, 14, 6)

Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/



foto tirada da net

15 março 2011

«I'm proud to be azorean»


Hoje fui finalmente ver a exposição sobre o prémio Nobel da medicina 2006 o açoreano-descendente Craig Mello. Confesso que senti orgulho. Apesar de ter sido já visitada por 400 pessoas penso que muitas mais poderiam visita-la se melhor publicitada. Além de ser pedagógica, a postura humilde de Craig é enternecedora, ele termina a sua palestra falando das descobertas ligadas à Diabetes, que tornou possível que o ser humano a partir da descoberta de uma hormona animal aplicada no ser humano chegou a uma hormona humana para a produção de insulina. Recomendo que como eu vão lá e também se orgulhem. Que vontade tive de ter na mão a medalha...A exposição encerra na próxima Sexta-feira...
Abraço mariense
Ana Loura


14 março 2011

Retiro na cidade - 7

Imagem tirada da net

A Palavra de Deus

«Tu não sabes de onde vem nem para onde vai»

Evangelho segundo São João 3,8

A meditação

Pegar no GPS

«Ser livre», caminho fundamental da felicidade no imaginário de muitos de entre nós. A felicidade, seria atravessar a vida sem contrariedades: nem sem proibições, nem sem obrigatoriedades.
Mas é para que sejamos verdadeiramente livres que Cristo nos libertou. E a liberdade que Cristo nos dá é a do Espírito Santo: «como o vento que sopra onde quer, assim é o homem nascido no Espírito» diz Jesus a Nicodemos (Evangelho segundo São João, Cap 3, versículo 8).

O crente não é um cata-vento que girará com não importa que vento, mas um ser verdadeiramente livre. Pois a verdadeira liberdade não é aquela liberdade fictícia que consiste em andar às voltas no deserto sem nos apercebermos, mas uma rota que nos conduz ao objectivo, a uma conclusão: a comunhão cada dia mais intensa com Deus e os nossos irmãos.
E para chegarmos lá, não podemos contar com as nossas próprias forças, arriscando-nos a perdermo-nos. Os viajantes servem-se duma bússola ou de um GPS. No caminho da vida, há ainda melhor do que este instrumento técnico, há o Espírito Santo que nos torna livres indicando-nos a direcção e que nos recalculam o nosso itinerário quando estamos perdidos. Introduzamos o endereço «Deus», e deixemo-nos guiar por este espírito que nos coloca na memória as Palavras de Cristo; ele ajuda-nos a discernir o que está bem, e ilumina o nosso coração e a nossa inteligência e dá-nos a força para nos convertermos e de nos tornarmos testemunhas

http://www.retraitedanslaville.org/spip.php?sommaire&date=2011-03-15

13 março 2011

Retiro na cidade - 6

Foto tirada de: http://comunidadevip.maiscomunidade.com/conteudo/2009-07-11/pelomundo/863/CAMINHOS-QUE-LEVAM-A-SANTIAGO.pnhtml


A Palavra de Deus
«Parte do teu país e vai para outro país que te indicarei»
Genesis 12, 1

A meditação

Partir para o desconhecido

Como Abraão, como Jesus percorrendo a Palestina, como os apóstolos e os discípulos enviados, nós somos convidados a «partir», por-nos em marcha em direcção a um futuro, que é sempre desconhecido. Homens e mulheres constrangidos pelas perseguições ou constrangimentos económicos, outros escolhem-na pela oportunidade ou pelo gosto da aventura. Espiritualmente, também, somos convidados, em toda a liberdade, a partir confiando totalmente na direcção da Palavra que nos chama e nos envia. Nós conhecemos as condições e as instruções da viagem: antes do mais, aceitar por-nos a caminho, deixar as nossas certezas, deixar-nos conduzir pelos santos, tantos os sábios como os loucos de Deus, por um caminho que eles trilharam antes de nós, um caminho cujo itinerário sem sempre conhecemos.

Não nos sobrecarregarmos com bagagens inúteis ou ao menos aceitar desembaraçar-nos dela se nos impedirem de caminhar. Alimentar-nos de um pão substancial, aquele que pedimos na nossa oração do Pai Nosso. Ir em direcção ao irmão e deixar-se acolher por ele, sem nos impormos, e receber na acção de graças o que nos é dado. Ir na direcção do outro e com ele encontrar o todo Outro. Pequena porção de estrada ou caminho de toda a vida, o caminho tem um nome mesmo que não o conheçamos sempre, ou ainda não. Este caminho chama-se «Jesus Cristo», caminho de verdade e de vida.

Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/spip.php?sommaire&date=2011-03-14

Retiro na cidade - 5

foto tirada do site dos Dominicanos de Lille

A Palavra de Deus

«Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito»

Evangelho segundo S. Marcos 4,1

Turistas ou peregrinos?

A meditação

Jesus não faz turismo. No entanto ao longo de todo o Evangelho, ele aparece como um infatigável caminhante, um itinerante que atravessa a terra da Palestina. As suas deslocações ilustram um aspecto essencial do ser de Cristo: é um peregrino que vem ao nosso encontro, faz o seu caminho até nós, atravessando as nossas estradas, para fazer da sua vida o caminho para Deus. Para isso ele dá o primeiro passo, tomando a iniciativa de se juntar a nós.

O evangelista Mateus fala assim da viagem inaugural de Jesus, símbolo de todas as deslocações ulteriores. Ele menciona três etapas que são lugares onde Israel faz a experiência da presença de Deus e questiona a sua relação com Ele. Locais de prova, de questionamento do nosso relacionamento com Deus: o deserto, o templo e o cume de uma montanha. E o Filho de Deus deixa-se conduzir nesses três lugares simbólicos, porque ele quis viver plenamente a nossa condição humana.

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O caminho de humanidade que ele nos pediu emprestado para vir até nós, precisamos de nos empenhar nele pela parte que nos toca. Se cada caminho é único, existem, senão passagens obrigatórias, pelo menos existem «etapas» essenciais. Para fazer do nosso próprio caminho humano uma estrada de libertação e de felicidade, é preciso considerar como Jesus venceu as suas três etapas e pormos os nossos passos nos dele, para ir com ele até ao fim da estrada e aí reencontrar Deus.

A primeira etapa desta viagem situa-se no deserto, local de libertação após a servidão para os Hebreus, mas também local de teste da fome e da sede. Jesus sofre-as ele próprio, pois quando caminhamos devemos refazer as nossas forças. Ao diabo que lhe propõe que faça um milagre para se saciar de alimentos, Jesus responde que o homem não se alimenta apenas de pão mas que a Palavra de Deus é para ele um alimento mais essencial. Não se trata da parte dele de desprezar os aspectos materiais, pois no seu caminho que conduzirá ao reencontro com os homens, Jesus alimentou as multidões, fazendo caridade com o próximo, o mandamento essencial. Mas neste deserto, ele adverte-nos contra uma concepção de felicidade reduzida à satisfação unicamente das nossas necessidades materiais com risco de já não termos ouvidos para a palavra de Deus. Esta ilusão da felicidade que consistiria em sermos saciados «de pão e circo» segundo o velho slogan romano repetido hoje pelas nossas sociedades de consumo. Nesta primeira etapa da viagem, a prova consiste em perguntar aos filhos de Deus, que queremos ser, qual é o alimento que desejamos e que concepção temos nós de Deus: distribuidor gratuito de bens materiais ou o único cuja Palavra refaz as nossas forças?

A segunda etapa conduz Jesus ao topo do templo de Jerusalém, onde o diabo lhe promete que se ele se atirar para baixo não sofrerá nenhum mal, Deus poupando-o do sofrimento e da morte. O nosso caminho passa por esta prova quando nós nos perguntamos como conciliar a nossa fé na Providência de um Deus que nos ama e a experiência escandalosa do sofrimento e da morte. Quando ele for confrontado, como todo o homem chegado ao início da viagem, Jesus não recusará esta prova, porque ela faz parte da condição humana e que ele veio para vivê-la até ao fim, e até ao fim do amor. Ele indica-nos através da sua atitude de confiança total no Pai, o caminho de humanidade que nós podemos seguir. Ele não veio pregar a resignação: ele próprio curou doentes, ressuscitou mortos. Mas ele veio viver estas provas connosco, para nos dar a força para as vivermos nós próprios. Quando Jesus for condenado junto do templo, Deus não enviou os anjos para o livrar da cruz, mas ressuscitando-o, fez da morte natural, unicamente pela força do seu amor, a passagem para a vida.

A terceira etapa, conduz Jesus ao topo de uma montanha, de onde se podem ver todos os reinos. Jesus é confrontado com o orgulho e com o desejo de poder. Exactamente os mecanismos sociais que geram a violência e o ódio têm por fundamento este desejo de domínio. Cristo, ele mesmo, quis ser aquele que serve, para que cumpramos a nossa humanidade, tornando-se servidores dos nossos irmãos.


Estas três etapas do percurso de Cristo reflectem todo o seu caminho de humanidade, que ele percorreu numa atitude filial para com o seu Pai e numa atitude fraternal em relação a nós, seus irmãos. Este caminho, ele propõe-nos que lho emprestemos. O caminho da nossa vida é-nos pessoal, porque a nossa história é única, ao mesmo tempo que se pode juntar ao caminho que Cristo percorreu. E se colocarmos os nossos passos nos dele, então a vida de Cristo torna-se nosso caminho, aquele que nos leva ao reencontro com o Pai.

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12 março 2011

Retiro na cidade - 4

imagem tirada da net


A Palavra de Deus

«Eis que estou à porta e bato»
Livro do Apocalipse 3, 20

A meditação
Vai

Eis-te diante da porta afastada. Irás abri-la? Terás, por certo, razões para recuares: há tanta coisa para ser feita lá fora, projectos para levares avante. Há o trabalho que te assoberba, a família, os amigos que te reclamam, e milhares de actividades da tua vida de todos os dias, os lugares que tu conheces de cor, esse quotidiano banal, mas tranquilizante.

Mas do outro lado, uma outra parte de ti mesmo espera. Uma parte ferida, uma parte obscura, uma parte rejeitada. Tudo isso é também tu. Não abrir, não será reduzires-te à fatalidade? Haveria realmente alguma coisa de irremediavelmente perdido em ti, para sempre? Não há nada a ser salvo nesse refugo guardado no fundo de ti? Não há nada de bom que possa germinar ali, se pedires a Deus que faça milagres?

Apenas por esta vez, escolhe o desconhecido. Prefere o silêncio às palavras, a surpresa aos planos escritos com antecedência. Deixa-te guiar pelo mais seguro dos guias, acolher pelo mais doce dos hóspedes, convidar por aquele que se convida para dentro de ti mesmo.

Tu não ousas? Então escuta. Por detrás da porta alguém se agita. Por detrás da porta alguém bate. Alguém, que não conheces, é está ali. Ele conhece-te. Ele espera-te no quarto dos fundos, no fundo do teu coração. Confiança, Ele chama-te. Responde: «eis-me aqui, Senhor!» De lá de dentro, eis que ele te abre. Vai!

http://www.retraitedanslaville.org/spip.php?sommaire&date=2011-03-12


11 março 2011

Retiro na cidade - 3

Foto tirada da net

A Palavra de Deus

«Fui abrir a porta ao meu amado, mas virando as costas, o meu amado desapareceu. »
Cântico dos Cânticos 5,6

A meditação
Apanha-me se puderes
Reconheci-o de imediato. Por entre todos aqueles rostos familiares, no salão, estava o meu bem-amado. Ele estava, portanto, lá dentro, quando eu o esperava lá fora. Não o imaginava assim, apesar de tudo. Dentro da sala todos falam, há movimento, atarefam-se. Mas ele não diz nada, ele olha-me, ele sorri. Ele tem o rosto doce dos pobres que nos passam despercebidos na berma do caminho. Ele parece não estar à vontade no meio daquela gente toda.

Eu avanço, ele faz-me um sinal que o siga. Eu hesito, abro caminho, sob olhar desnorteado dos meus amigos. Que lhe deu? Riem-se, espantam-se, mas eu já não tenho tempo. Corro atrás daquele que eu esperava, o Senhor da minha vida. Mas eis que ele avança, franqueia as portas, desce as escadas de dois em dois degraus. Ele esquiva-se pelos obstáculos que entravam a sua rota: canos rotos e água porca estagnada, os vasos escacados, os móveis partidos. «Espera! Tem cuidado: tu vais cair, vais ferir-te nesse labirinto que leva ao fundo de mim!» Mas ele conhece o caminho e ele agora embrenha-se, falta-me o fôlego quando no fundo do caminho, as suas costas, de repente, desaparecem. Já não há luz, mas eu conheço este lugar. A porta estava fechada, mas ele entrou. Conduziu-me exactamente aonde ele queria. E o meu coração arde ao adivinha-lo ali, tão próximo, tão longe, tão no fundo de mim mesmo. Luz quente e viva que brilha dentro da porta.

Tradução de: http://www.retraitedanslaville.org/spip.php?sommaire&date=2011-03-11

10 março 2011

Retiro na cidade - 2

imagem tirada da net
A Palavra de Deus

«Quer esteja a dormir, quer se levante, de noite e de dia, a semente germina e cresce, sem ele saber como.»
Evangelho segundo São Marcos 4, 27

Deixa o teu quintal

É bem bonito o meu jardim cultivado pelos meus cuidados. Nem uma erva daninha, nada que me passe despercebido. Estou orgulhoso dele…mas já estou aborrecido. Claro que me felicitam pelas minhas rosas bem podadas e a minha relva tão verde. Se eles soubessem o que ele esconde!De tanto falar de flores e relva, não dizemos realmente mais nada. Eu poderia ficar a vida inteira no meu jardim, na frente da minha casa, de sorriso estampado nos lábios, deixar que vejam em mim apenas uma fachada. Eu poderia viver o resto da vida podando as mesmas sebes, regando as mesmas plantas, cultivando a vida num vaso. Por um instante, eu pensaria que sou eu que faz crescer tudo aquilo. Eu poderia ficar alí especado, à espera do Convidado de honra para quem eu plantei aquele cenário.
Mas, por mais que eu espere por esse final feliz, eu não vejo nada acontecer, é preciso que eu acorde. Hoje eu deixo as minhas plantas no terreno, a chuva fará sozinha o seu trabalho. Eu parto, pois tudo isto crescerá sem mim. Tanto pior se o meu jardim ficar um pouco selvagem. Tanto pior se alguém se inquietar: «estás bem mudado!» Abandono o jardim, entro em casa. Vou dar uma volta por aí, nunca se sabe: e se Aquele que eu espero já entrou, sem passar pelo jardim? Está decidido, parto para uma viagem, à Sua procura, dentro de casa.
Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/spip.php?sommaire&date=2011-03-10

08 março 2011

Retiro na cidade - 1

Foto de Luis Lobo Henriques


A Palavra de Deus

«6Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te.» (Mateus, 6,6)

Limpeza de primavera

Em breve será Primavera, será necessário enclausurar-me? O sol finalmente brilha, irei esconder-me? Aferrolhar-me em casa, quando tudo me convida a sair, aqui está uma forma estranha de começar a Quaresma. Eu que queria finalmente fugir das coisas empilhadas e atamancadas no fundo da casa, debaixo da cama, em cima da secretária: os livros que nunca li, as peúgas desirmanados, a louça desarrumada. Um monte de coisas que não estão em ordem, que esperam para mais tarde e gostaríamos de esquecer. No fundo do nosso coração também existem muitas coisas empilhadas: querelas que nos afastam, perdões à espera, feridas mal saradas. Nem sempre gostamos de nos retirar para esses cantos das nossas vidas, preferimos ignorar esses lugares escondidos dentro de nós, escondidos atrás de portas fechadas com duas voltas da chave.

No entanto é para lá que o Senhor nos pede que vamos hoje: para os recantos escondidos da minha vida. «Retira-te para o fundo da tua casa». Não fiques aí, ao sol, franqueia uma a uma as portas, primeiro as mais fáceis de abrir. Encontra os lugares onde é bom permanecer: as salas familiares, acolhedoras. Aquelas que são apreciadas pelos teus amigos, a tua família, onde brilham as tuas qualidades.

Depois continua, e entra noutros quartos, mais íntimos: os sentimentos que não partilhas senão com poucas pessoas, os segredos, as fraquezas. E ao fundo, bem ao fundo chega junto daquela porta fechada. Abri-la parece-te talvez imprudente. Tudo o que por trás está tão mal arrumado não corre o risco de me cair em cima, de me ferir, me sujar?

Sabe, no entanto, que o mais belo dos reencontros te espera para além daquela porta. Porque Cristo se escondeu lá. Ele desertou do jardim ensolarado, do lugar acolhedor, do apartamento modelo. Ele adiantou-se a ti, para o quarto recôndito.

Abro? Mas de que tenho medo? Quando os discípulos, por medo, fecharam-se num quarto hermético depois da ressurreição, o Senhor não hesitou em vir para o meio deles. As suas vidas estavam cheias de sombras e de dúvidas, e é para esse quarto obscuro que Cristo veio trazer a luz da Sua ressurreição: «Confiai, sou eu!». Se isto resultou com eles porque não há-de resultar comigo? Deus não viria, não entraria, no que há de mais fechado em mim? Irei eu correr para longe do local onde ele me espera?

Além disso, é exactamente aqui que ele me irá ser útil. A arrumação, eu já a fiz vinte vezes na sala. Na frente da casa, o alpendre está impecável. Salvei as aparências, da fachada nada há a dizer. Mas este tempo de quaresma nada tem a ver com a renovação da fachada ou com a decoração do interior. Convida-nos mais a arejar até ao mais recôndito da casa, a deixarmo-nos tomar o fôlego do sopro vivo desses primeiros dias ensolarados.

Aqui já não sou eu quem O acolhe, é Ele que me acolhe. Esse quarto escondido no fundo de mim, ele conhece-o muito melhor do que eu. É ele, o quarto, que lhe interessa, pois é lá que ele tem mais trabalho a fazer. Pôr em ordem, consertar, escolher: uma verdadeira limpeza de Primavera.

É a altura exacta de nos virmos juntar a Cristo no quarto dos fundos, para lhe dar uma mão. Sem dúvida, com ele, o trabalho irá correr bem. Ele é que fará o trabalho, a nós basta-nos apenas rezar-lhe e segui-lo

Quem sabe? Com ele, talvez ousarei agarrar-me a essa série de nós complicados que paralisam certas relações? Com a Sua ajuda, talvez me aconteça meter o dedo nalguma ferida, para lhe pedir que as cure? Com a Sua força, talvez concerte dois ou três móveis, velharias encafuadas em mim, velhos talentos esquecidos escondidos nalguma roupa. Com a Sua doçura, eu reencontrarei algo de novo enterrado na poeira, para o fazer brilhar lá fora, no grande dia da minha vida.

Retirar-nos para os fundos, por momentos. Para nos escondermos uns tempos, no fresco de uma sombra e falar sem receio com Aquele com quem na sala, ou no jardim eu ousaria apenas cruzar-me.

Esse quarto será o nosso segredo durante toda a Quaresma. Desta porta, apenas nós, Ele e eu, temos a chave. Ninguém saberá o que tramamos em segredo, dia após dia nos fundos da minha casa. Apenas um ruído, em surdina: móveis que deslocamos, coisas que consertamos, um estaleiro enfurnado dentro de mim. Qualquer coisa como uma ressurreição, que sobe do mais fundo de mim mesmo, para fazer dos meus túmulos o mais belo jardim de Páscoa.


Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/