7 de abril de 2008

A Vida (que tenho, ou não)


Bom dia!





A VIDA

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
a luz que nesta vida me guiava,
olhos fitos na qual até contava
ir os degraus do túmulo descendo.

Em se ela anuviando, em a não vendo,
já se me a luz de tudo anuviava;
despontava ela apenas, despontava
logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gémea da minha, e ingénua e pura
como os anjos do céu (se o não sonharam...)
quis mostrar-me que o bem bem pouco dura!

Não sei se me voou, se ma levaram;
nem saiba eu nunca a minha desventura
contar aos que inda em vida não choraram ...

(...)
;
A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma após outra lançou,
a vida – pena caída
da asa de ave ferida -
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou!





Há dias em que nos dá para filosofar, procurarmos o sentido das coisas, questionarmo-nos se a vida que temos, levamos, vale ou não a pena. A vida! Será que a vida é apenas o instante que este poema de João de Deus resume na folha que cai e o vento levou? É estranho que tantas vezes tenha lido o poema, o tenha analisado nas aulas de português do liceu e só hoje tenha reparado que as estrofes que falam da folha, a primeira esteja no presente e a última já no passado. Excelente forma de enfatizar a brevidade da vida. Mas nem é bem esse o aspecto que me fez, hoje, vir à memória este poema, mas sim se a vida/vivência que tenho é a que me realiza, me faz feliz. Nunca fui muito exigente com nada, mas por vezes sinto que não vou para além do trivial, do mediano, do “normal”, que tudo seria diferente se…se…se…e se. Mas eu não gosto de ser obrigada pelas circunstâncias da vida a optar e quando o faço fico sempre, ou quase sempre, com a sensação de, como diz alguém, ter apostado no cavalo errado. O certo é que ando meia à deriva, meia perdida, sem rumo…falta qualquer coisa que não sei, ou talvez saiba, para me dar o equilíbrio, me fazer abrir a janela de manhã e sorrir para o sol acabadinho de nascer, é que há dias em que parece que nem o sol nasceu e nem a lua ainda brilha no céu. É que sem sol não há luar e é assim que me sinto, sem sol e sem luar. Resta a esperança de que venham melhores dias, e virão certamente. Até lá…





Abraços marienses

Árvore. 07 de Abril de 2008

Ana Loura

6 comentários:

lilafpmeloanjos@hotmail.com disse...

Gostei imenso do teu texto anterior sobre "Juventude, telemóveis, escola e responsabilidades...", onde tudo o que me parece importante foi dito e a que não acrescentei comentário, não só porque pouco mais haveria a dizer, como porque o tempo às vezes "encolhe"...
É verdade: nunca tive tão pouco tempo como desde que me aposentei...por doença (quem diria!).
Era neste tempo de agora (noutras circunstâncias sonhado) que eu projectava a realização de tantas coisas que ficaram por fazer, já que trabalhava tanto...
Mas e então?
Então é assim: toca a gostar do que há, porque o que não há Deus dará...(se achar por bem) um dia.
Pôr a alma em cada nica, nem que seja a lavar a loiça, com a mesma garra com que se pinta um quadro ou se lê um poema.
Olhar uma cebola como se fosse o Sol e um nabo como se fosse a Lua e inventar uma sopa sideral...
Inventar uma estória das arábias para contar a um cadernito porque razão sou "dona de casa", quando nunca quis ser dona senão do meu nariz...que muitas vezes tento desempinar, a custo, porque foi esculpido em chifre de carneiro, como me diziam em pequena.
Como eu te percebo, Ana!
E como gosto de ti, empoleirada na crista das ondas dos mares dos Açores, em dia de tormenta!
Uma coisa eu sei...isto não fica assim. O Pai sabe o que nos convém e nada acontece por acaso...Também os mareantes andaram perdidos , antes de chegarem a continentes novos e nossa será a Terra Prometida, um dia mais à frente - Moisés também só a viu ao longe e era íntimo de Deus.
Aqui fica um beijo de Esperança - a única coisa que posso partilhar porque tenho sempre a florir noo canteiro da salsa...

Lua dos Açores disse...

Lila, quando vi o teu Ana?? no MSN depreendi logo que tinhas lido a minha crónica e me tinhas lido a alma...neste momento as lágrimas fazem rio no meu rosto...e tu sem estares aqui (no MSN) consolas-me, alentas-me com a esperança que semeias no canteiro da salsa. Que Deus te abençoe e te aligeire o fardo. Adoro-te querida Amiga/IRMÃ

Beijo

Anónimo disse...

Olá,
Grato pelas palavras amáveis de há dias. A "minha" pobre poesia limita-se a compensar platonicamente os momentos de ausência de um rosto belo.
bjs
Galileu, Galilei (ir ao futuro)

Anónimo disse...

Hoje preferia não ter lido a tua escrita , prefiro a outra ANA a de hoje deixou-me sem saber o que dizer , o que terá acontecido para ficares assim - levanta teu rosto e a fé que há em ti ha-de ajudar-te - todos temos momentos menos bons mas não te deixes levar por essa solidão - o sol volta sempre e consegue mais que qualquer escuridão , dias melhores virão tenho a certeza que és mulher para dares a volta - a tua vontade de viver será superior a tudo.
bj
L.A.

aurora disse...

"Há dias em que nos dá para filosofar, procurarmos o sentido das coisas, questionarmo-nos se a vida que temos, levamos, vale ou não a pena. A vida!" ...
Será indícios da crise da meia-idade.Não estás só Ana,tb penso muitas vezes no que fiz e não devia ter feito,ou no que deveria ter feito e não fiz,mas há sempre tempo para renovar as nossas atitudes,há sempre tempo para apreciar o dom maravilhoso dos momentos que o Pai nos oferece a cada instante.Vá coragem!!!,melhores dias hão-de chegar.Bjs

Flávio Gonçalves disse...

Já não filosofo muito, concluí que vivemos para trabalhar e trabalhamos para pagar as dívidas ao bando, o resto... é o resto.

Haja força (e alguma fé).