12 de abril de 2006

Vai fermosa e não segura

Foto da Praia Formosa (filhos do Tim dos Xutos) enquanto não "trato" as que deveria ilustrar a crónica
Bom dia!

Praia Formosa
Formosa, esta palavra leva-me sempre ao soneto de Camões: Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;

Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.

Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura
.Vai fermosa e não segura.

Ando há dias com uma vontade enorme de voltar a falar da nossa praia mas, pensei com os meus botões: se disseres o que estás a pensar vão dizer que andas a perseguir alguém e vão olhar para ti de esguelha, mais uma vez, mas o que tem que ser tem muita força e depois de me virem dizer o que me disseram lá fui eu Domingo de tarde caminho da Paria abaixo para voltar a olhar o motivo do meu desgosto inicial e ver de perto o motivo da queixa que alguém indignado me fez e que também me indignou.

Vou levantar devagarinho a ponta do véu…Eu não sou muito de sair de casa, mas às vezes apetece ir por esses caminhos da ilha e olhar os verdes detrás dos Picos, o azul lindo do nosso mar. Há dias veio a Santa Maria um amigo meu recente que viveu em Santa Maria dos dois meses aos pouco mais de dois anos. Tinha uma imensa curiosidade em conhecer a ilha e lá me dispus eu, em detrimento do meu enorme desejo em participar na Procissão da Passos, a mostrar-lhe o que conheço da ilha. Íamos a começar a descer a Praia e chamo-lhe a atenção para a paisagem que iria aparecer-lhe diante dos olhos mesmo em frente ao Miradouro da Marcela…curva desfeita e os meus olhos batem, nem quis acreditar, numa enorme palmeira plantada à sovela num monte de terra rodeado de pedras quase ciclópicas… Não pode ser…Onde está a baía da Praia??? Andamos a limitar a altura dos prédios e plantam-nos um mamarracho daqueles assim de um dia para o outro num sítio daqueles? Ainda se a palmeira tivesse crescido ali e nós a tivéssemos visto a crescer se calhar não incomodava tanto, mas assim da noite para o dia…ideia peregrina essa…Mas está bem…deve de haver quem goste. Eu não…Era uma maravilha ir descendo aquele bocadinho de estrada e os olhos irem “descobrindo” a praia e depois estacionar o carro, sair e ver a baía completa.

Hoje na minha ida à praia, para além de ter ido reconfirmar que a tal palmeira não era pesadelo que eu tivesse sonhado uma destas noites, fui, também, reconfirmar o que alguém indignado me tinha contado: estão a desaterrar um terreno na Praia, junto ao hotel de apartamento dos Melos, e estão a lançar no mar a terra retirada. Ainda a procissão vai no adro, pois ainda há umas boas toneladas de terra a serem retirados, e a água da praia dos “Complexados” está barrenta. Segundo se diz, “alguém” terá autorizado semelhante atentado ao bem comum. Como pode alguém ou entidade ter autorizado que um particular construtor, para que uma obra fique mais barata ao poupar o preço do transporte do entulho para sítio conveniente (quantos quintais a precisarem de terra, quantas obras a precisarem de entulho) o lança, pura e simplesmente para a praia para que o mar o lave e leve. Sabemos que a “água lava tudo, menos a má-língua”, mas será que se pesou as consequenciais da decisão? A nossa Praia Formosa tem sido alvo de atentados ao longo dos anos, erros sobre erros e a culpa sempre tem morrido solteira e depois vem a pergunta porque não falaram? porque não apresentaram o problema? com ar inocente ou com a má fé de quem se demite das responsabilidades ou conscientemente favorece os amigos, familiares ou conhecidos, ou levianamente decidiu sem pensar. Tanta tonelada de terra não irá impedir a subida da areia para a praia? Ou por outro lado até vai favorecer e eu estou a falar sem saber? Também não me compete a mim saber pois não tenho acesso a técnicos entendidos dos gabinetes do Governo Regional nem do Laboratório de Engenharia Civil. Eu, só olho, vejo, penso e digo. Ouço o que me dizem e transmito-o…Ouvi indignação, estou indignada e digo-o

Fermosa, formosa significa coisa linda, delicada. Tenho uma vaguíssima ideia de como era a nossa Praia Formosa antes do “progresso” lhe ter tirado alguma da formosura que tinha e hoje começa a ser difícil de entender o porquê do nome.
Abraços marienses
Santa Maria, 10 de Abril de 2006
Ana Loura

4 de abril de 2006

Santa Maria


















Bom dia!

PRESÍDIO ILHÉU
Mar, sempre mar…
Céu, sempre céu…
O mesmo tom azul de nuvens manchadas,
No meu presídio ilhéu…
Mar, com a mesma cor cinza…
As mesmas garças…
A humidade salgada…
Um sabor de lágrima chorada,
A rolar, a rolar
Sobre o rosto,
De quem vive sonhando,
Para fugir, partir, emigrar!...

Mar… Sempre mar …
O mesmo horizonte, longínquo, distante…
Na minha ilha,
A mesma fonte rumorejante,
Escondida no vale,
Ou no socalco da montanha,
Gritante … Gritante …

Todos os dias rolando,
Com tudo no mesmo…
A mesma sombra passando,
A mesma jovem sonhando,
O ébrio cambaleando,
Lá vai tentando olvidar
Que vive – se é que vive –
No meio do mar … No meio do mar …

Mar… Sempre mar…
Torturante prisão,
A apertar, a cercar,
O meu louco desejo
De evasão!...

Para longe… Nem sei para onde…
Para qualquer parte,
Onde se esconde,
Dia a dia,
Na sombra da fantasia,
A minha fome de arte,
A minha sede de Poesia!...

Mar… Sempre mar…
Caminho… Sempre caminho…
Sempre em frente…Sempre em frente…
Mas tenho que parar!...

E parar,
Porque há mar, sempre mar…
É que, desde que nasci,
Anda-me ele a cercar
A suster o meu caminho!....

Mar…Sempre mar!....

ILHA DE SANTA MARIA

Quem pode partir, um dia,
Sem nunca mais te lembrar?!...
Ó minha Santa Maria,
Quem te pudesse abraçar!

Tenho saudades de ti,
Dos teus vales, dos teus montes …
Foi por ti que me perdi,
Ouvindo o canto das fontes……

E dos grilos, ao luar,
Nas noites quentes de estio,
Da brisa que vem do mar,
No Inverno, cinzento e frio.

Se, na tua soledade,
Te debruças sobre o mar,
Mais cresce em mim a saudade
De te ver e te abraçar ! …

Ó minha Santa Maria,
Ilha tão abandonada …
Rainha fizeram-te, um dia …
Hoje, escrava, não tens nada ! …

Onde estão as velas brancas
Dos teus moinhos de vento,
Que a brisa punha a girar,
Em constante movimento?

E o moleiro já cansado,
Subindo a colina, tinha
No velho rosto, enrugado,
Sulcos fundos de farinha! …

E na tarde, quando o sino
Dobrava, ao longe, Trindades,
Marcava no seu destino,
Um destino de saudades ! …

Tuas santas tradições,
Em Maio, mês de Maria,
No Terço e nas orações
Que, nas aldeias, de dia,

O povo ia rezando,
Mesmo ao sair das igrejas,
Para casa, caminhando …
Bendita, bendito sejas,

Santa Maria, ilha Santa …
Que tudo e tudo aceitas,
Mesmo de esperanças perdidas …
Mesmo de esperanças desfeitas! …

Ilha de Santa Maria!
Ó minha terra adoptiva!
Nunca mais te esquecerei,
Por muito e muito que viva.

Quem pode partir, um dia,
Sem nunca mais te lembrar ?
Ó minha Santa Maria,
Quem te pudesse abraçar !

São estes dois poemas de José Maria Lopes de Araújo, poeta Açoriano que viveu em Santa Maria, do seu livro Remos Partidos

Hoje para além destes dois poemas quero deixar-vos um texto que escrevi para ler no último Jantar Assembleia do Clube Lions de Vila do Porto num gesto de homenagem a esta organização de solidariedade tão importante.


















Saudação das bandeiras

Talvez que a evocação que eu vos começo a ler não seja aquela que me foi pedida pelos companheiros que me confiaram esta honrosa tarefa, mas em tempo de balanço de 25 anos de vida vivida em Santa Maria e em vésperas de partida de “metade de mim” é importante que eu diga que das reticências que o desconhecer do que de facto somos e me fez titubear na resposta que dei ao convite feito pelos meu Padrinhos para pertencer a este grupo de marienses depressa desapareceu e com ele a ideia que me fora transmitida por outros de que o Club Lions de Santa Maria é um grupo elitista e fechado.
Não, não somos nem uma coisa nem outra. Somos, outro sim, um grupo de pessoas que olha à volta e vê e vai ao pé daqueles que precisam e ajuda-os com aquilo que quem pode dá. Os Lions dão do seu tempo, do tempo das suas famílias, do seu esforço, do seu carinho, porque nós Lions servimos.
Quero deixar-vos com uma frase que encontrei num Mosteiro Franciscano: “O Pão que sobra da tua mesa pertence ao pobre”.
Nós Lions temos obrigação de sensibilizar aqueles a quem o Pão sobra para que o dêm àqueles a quem esse pão, por direito, pertence.
Metade de mim parte com a certeza de que aqui fica um grupo de gente com o coração grande, com o coração de verdadeiro Leão, Mas a outra metade, aquela que é e será sempre mariense fica. A todos os companheiros deixo o meu abraço fraterno e a minha confiança de que em Santa Maria há gente que serve.
Santa Maria, 31 de Março de 2006

Abraços marienses
Santa Maria, 3 de Abril de 2006
Ana Loura

29 de março de 2006

A mentira tem perna curta



Crónica lida aos microfones da Estação emissora do Clube Asas do Atlântico no dia 27 de Março de 2006
Nata prévia, apesar de ilustrada unicamente com fotos tiradas no nosso aeroporto há mais entidades e pessoas impícitas no texto da crónica.

Bom dia!

A mentira tem a perna curta, mais depressa se apanha um mentiroso q um côxo, quem mais jura mais mente. Diz-se de certas pessoas que mentiu com quantos dentes tem na boca, que mentiu como um saco roto. Há também, e referindo-se à mentira, o dito de que com papas e bolos se enganam os tolos, que existem pessoas que nascem sorrindo, vivem fingindo e morrem mentindo. Em tempo de guerra mentira é como terra. Nem tudo que reluz é ouro. Não faça aos outros o que não queres que te façam.

Estes são alguns ditos populares que mais directa ou mais indirectamente estão relacionados com a mentira.

Eu não poderei afirmar que nunca tenha mentido, mas abomino de tal forma a mentira que prefiro mil vezes uma verdade que me magoe, me seja desfavorável, do que uma mentira esfarrapada ou piedosa. A mentira tem, de facto, a perna curta, mais depressa se apanha um mentiroso que um côxo, e num meio pequeno como o nosso mais tarde ou mais cedo a verdade vem ter-nos à mão servida em bandeja e geralmente obra do acaso.

Quando confio numa pessoa e mais cedo ou mais tarde venho a saber que em qualquer altura essa pessoa deliberadamente me mentiu ou enganou, mesmo conhecendo-me e sabendo que eu detesto a mentira e que por me mentir me vai desiludir e magoar, essa pessoa pode ficar certa de que nunca na minha vida eu voltarei a ter a confiança cega que anteriormente nela depositava. Acabou e não há nada a fazer.

Eu sei que é preciso “Tê-los” no sítio, como muito sabiamente, também, diz o nosso povo para se dizer sempre a verdade numa de doa a quem doer, ser frontal e cairmos em desgraça por o ser-mos. Mas nada como se dormir com a consciência tranquila, já que as agruras e “cinzenturas” da vida e…as mentiras dos amigos... nos tiram o sono em quantidades e qualidades suficientes para nos estragar a noite e azedar o dia.

Bom, deixemos as considerações de carácter pessoal e vamos ao que interessa, embora aquilo que interessa esteja, de certo modo, ligado à questão da mentira: Eu tenho a mania das ecologias, como toda a gente sabe, e não é vício recente. Já quando eu andava a estudar no Porto, há mais de vinte e cinco anos, portanto, andava de bilhete de autocarro na mão ou o papelinho da chiclete/gama durante metros bem aviados para não os atirar para o chão, até a um recipiente do lixo…mania mesmo…

Agora tento separar o lixo que produzo em casa o melhor possível e meto-o no carro e vou levar até aos contentores que foram depositados para o efeito na rua atrás da minha…Tudo bem, eu parto do princípio de que esse lixo continua separado até ser entregue no destino para ser reciclado, oxalá que um dia destes eu não tenha a desilusão de saber que afinal depois de recolhido vai tudo para o mesmo saco…a ver vamos.

Mas desilusão eu já a tive, pois quando vou ao terminal do nosso Aeroporto vejo lá uns recipientes todos bonitos e aerodinâmicos com cestinhos dentro com a finalidade de lá serem depositados, separados, os lixos dos passageiros e acompanhantes, porque a ANA é uma empresa que se preocupa com o ambiente. Depois vem uma das senhoras da empresa de limpeza e “dumpa-o” para o mesmo saco. Lá estou eu a ser enganada e não gosto, claro que não gosto…Mas parece que é apanágio das empresas nacionais que se dizem verdes e amigas do ambiente esquecerem-se de o ser aqui na ilha, e não saberem onde ficam os pontos onde se faz a recolha selectiva, não fazerem acordos com as autarquias e canalizarem, pelo menos, o papel e as garrafas de plástico para os contentores devidos. Para mim o que elas fazem é uma forma de mentira, de fuga à verdade de não serem verdes mas pretas por faltarem à verdade e terem a responsabilidade de não estragarem o bem comum que é o nosso frágil ecossistema e se demitirem das suas responsabilidades para com as comunidades em que estão inseridas.

Outra mentira deslavada e descarada é a estória da carochinha que o Governo Regional inventou e que veio substituir o best–seller dos Três Porquinhos sendo o Lobo mau substituído pelo próprio Governo vestido de pele de cordeiro e os três porquinhos nós os marienses todos: “Ilhas de coesão”. Pois fique o meu querido ouvinte e mariense atento a saber, que o bilhetinho que o vai leva a S. Miguel no novo barco que vem fazer as viagens no próximo Verão e nos vai trazer os Sanmiguéis, como nós carinhosamente chamamos aos nossos vizinhos do lado, a Santa Maria vai custar quase mais cinco Euros, quase mais mil escuditos. Este aumento está muito acima do valor da inflação e é uma vergonha virem contar-nos estas estórias de coesões, e de indemnizações compensatórias pagas com o nosso dinheiro para que as viagens sejam baratas e nos aumentem o preço dos bilhetes numa quantia tão elevada. Mas, mais uma vez, nós iremos aceitar porque não estamos para protestar, para nos chatear e mais uma e outra e mais outra vez eles nos vão mentir, escarnecer, dar caneladas e nós a votar neles e a cara alegre.

Pois é, detesto que me mintam, mas mais detesto é saber que essa mentira vem da boca de alguém em quem eu confiei e votei. Não é este o seu caso? Apesar de não ser o meu em relação aos nossos governantes, pois não votei neles, eu sinto que estou a ser enganada porque sou mariense.

Para terminar vou contar-vos uma coisa que se contava quando o Professor Marcelo Caetano proferia na RTP as famosas Conversas em Família que tinham como objectivo convencer o Povo de que estava tudo bem na República Portuguesa, que a Guerra Colonial não existia, apesar de toda a gente ver os filhos, os irmãos e os amigos a embarcarem para as colónias…Ora dizia eu que no tempo em que as raposas falavam…desculpem, em que O Professor Marcelo Caetano proferia as tais conversas, num café, nesse tempo ainda não eram muitos os lares com aparelho receptor de televisão, estavam muitas homens a assistir e um deles de olhos pregados no aparelho dizia baixinho: “Beija-me…beija-me” os outros estavam boquiabertos com os ditos do amigo, mas como era o Senhor Presidente a falar calaram-se e o tal sempre a dizer baixinho o Beija-me, beija-me…Quando acabou a Conversa um perguntou-lhe: “olha lá, tu estás doido??? Que estória é essa de pedires beijos ao Nosso Presidente?” Responde o homem: “É que sabes? eu gosto que me beijem quando fazem amor comigo e eu sei, perfeitamente, que ele me estava a lixar”.

Abraços marienses
Santa Maria, 27 de Março de 2006
Ana Loura

21 de março de 2006

Memória
























Foto de Fernando Monteiro by Foto Pepe- Vila do Porto

Foto de Praia Formosa, Santa Maria by Ana Loura


Bom dia

De regresso à ilha depois de uns dias de férias no continente. Como é bom voltar ao nosso cantinho.

Normalmente fazemos balanços em datas convencionadas. Os balanços de actividades comerciais são feitos no final de cada ano e os balanços das nossas vidas, geralmente, são feitos quando fazemos bodas de prata ou de ouro ou quando mudamos radicalmente de rumo. A mim cabe fazer balanço, neste momento, essencialmente, porque no último dia 17 se completou 25 anos da minha permanência na ilha.

Cheguei a Santa Maria no dia 17 de Março de 1981, quinta-feira por volta das 11 horas da manhã. Vinha do Faial onde estava a dar aulas. Não havia ninguém à minha espera e eu só tinha um nome, da pessoa que assinava o telegrama a informar que tinha sido admitida e que me deveria apresentar, logo que possível. Aliás, trazia, também, a recomendação para me dar a conhecer e cumprimentar o Director, de então, do Aeroporto, o Senhor Israel, que me recebeu com extraordinária simpatia.

Confesso que o meu primeiro contacto visual com Santa Maria não foi dos mais agradáveis. Quando assomei à porta do avião e olhei em frente vi uma terra seca e acastanhada, muito diferente do verde da ilha de onde vinha.

Quando concorri poderia ter escolhido qualquer uma das outras ilhas onde a então ANA, EP era responsável pelo respectivo aeroporto, ou ter mesmo ficado no Faial. Mas, porque a senhora em casa de quem estava hospedada me teceu os mais rasgados elogios às belezas e vivências de Santa Maria, foi essa a minha primeira escolha. Tivesse sido outra e qual teria sido a minha vida nestes últimos 25 anos?

E qual foi a minha vida nestes últimos 25 anos? Casei, nasceram os nossos filhos, os três no velhinho Centro de Saúde, com atendimento de luxo, tiveram os sarampos e as bexigas loucas da praxe, frequentaram o Jardim Infantil da Mãe de Deus, a escola do Aeroporto e agora estão os três a preparar os seus futuros: dois em S Miguel e uma “lá fora” em Lisboa.

Foram muitas as pessoas que eu conheci, com quem criei e cultivei amizades. Santa Maria era, à época, e ainda o foi durante alguns anos, local de passagem inclusive de funcionários do aeroporto que vinham trabalhar em comissões de serviço: estavam durante algum tempo e quando a comissão terminava, ou renovavam ou iam embora de vez. Muitos estavam o tempo suficiente para que se justificasse trazerem consigo as famílias. O aeroporto, ou seja, a sua zona habitacional, fervilhava de vida. Havia crianças a brincar nas ruas dos bairros. Uma grande parte dessas crianças partiu há muitos anos. Contam-se pelos dedos das mãos os colegas dos meus filhos que ainda vivem em Santa Maria.

Muitas das pessoas que conheci na altura já morreram. Enquanto ia escrevendo estas linhas recordei duas delas: Fernando Faria e Fernando Monteiro. Duas pessoas que, independentemente das suas opções políticas, fizeram parte do número de pessoas que prezei e cuja memória cultivo e a quem dirijo o meu pensamento em jeito de abraço e homenagem.
De Fernando Monteiro, poeta mariense, talvez esquecido

AO MAR DO NORTE, MEU MAR BRANCO…
Oh mar branco
Do norte fundo
Envolve minha alma inteira
Enrola-me na tua espuma
Inquieta e fugidia…
Na onda de lua em praia
Leva-me para além
Do fundo azul
Minha nocturna
Vivência
Que me invadiu de tormenta!
Faz regressar minha esperança
Naquela bruma de renda
Dilui-me toda a saudade
Em conchas
De fogo vivo
Nas chamas
Do teu cadinho…
Oh mar branco
Enche a minh’alma
Oh onda
De vento deserto
Marulha na areia quente
Ecoa meu sofrimento
Constante no turbilhão …
No meu corpo dolente
Sofro a vazante
Da tua ausência
Em cada instante …
Oh vento
Do mar do norte
Regressa cindindo amor
Na minha nascente dia primeiro
Meu corpo em chama
Entrou ….
E nunca mais quis sair!

Abraços marienses

Santa Maria, 20 de Março 2006
Ana Loura

13 de março de 2006

85 aniversário



Fotos do jantar realizado em Vila do Conde


Bom dia!

Quanto mais velha estou mais feliz fico quando se aproxima a data do meu aniversário.
Não, não faço anos nos tempos mais próximos. Agora terei que esperar quase trezentos dias para ter a alegria de dizer: Mais um...este já cá canta, ninguém mo tira. Fazer anos é sinal de vida. Dos que morrem costumamos dizer que “faria tantos anos se estivesse vivo” dos que vivem dizemos: fará tantos anos...falamos ou no presente ou no futuro ou mesmo dizemos que fez queremos dizer que fez porque vivia.

Fez no passado dia 6 de Março 85 anos o Partido Comunista Português. Não é um facto como outro qualquer. Significa que desde há 85 anos há pessoas, muitas pessoas, que abraçam o ideal da luta pelos que mais precisam. Gente de diversas condições sociais que acreditaram e acreditam que uma sociedade mais justa e fraterna é possível e lutam por ela, intervieram e intervêm na sociedade de forma a transformá-la. Só assim foi possível que o Vinte e Cinco de Abril acontecesse: muitos reconheceram que a sociedade daquela época era injusta, acreditaram ser possível a mudança e lutaram por ela, transformando-a Muitos deram a sua vida por esta causa. Uns deram a vida, entregando cada um dos seus dias ao trabalho político outros acabaram por dar mesmo a vida morrendo pela causa comunista, pelo ideal dessa sociedade mais fraterna e mais justa.

Não podemos falar da História do Partido Comunista Português sem falarmos no dia-a-dia do Povo português. As duas são indissociáveis.

O aniversário deste ano coincide com o balanço de um ano de governação de Sócrates. Se a maioria do povo Português deu, há um ano, a possibilidade de Sócrates governar com uma maioria absoluta, é certo que, neste momento se o arrependimento matasse, como se costuma dizer, muitos portugueses teriam morrido de arrependimento e frustração neste último ano: Sócrates passou por cima de muitas das suas promessas eleitorais, a política está desacreditada pela atitude arrogante de Sócrates.

O governo PS está a atacar o sector público, com a justificação manhosa do déficit. Os partidos de direita esfregam as mãos de contentes. Aos patrões da CIP e da CAP saiu-lhes a sorte grande: têm quem faça o “trabalho sujo” do grande capital com o selo de um governo “socialista”. A direita afirma que este Governo tem a coragem para fazer as transformações que o País precisa e aqui leia-se as transformações que convêm à própria direita. O anúncio da OPA da Telecom já deu ganhos a Belmiro de Azevedo e provocou um aumento de 2% nas acções da Portugal Telecom. Os salários reais dos trabalhadores portugueses tem descido drasticamente nos últimos meses. O poder de compra cada vez é mais baixo. O desemprego aumenta vertiginosamente. Os números reais ultrapassam em muito os números anunciados pelos Governo pois a grande maioria dos desempregados com mais de 50 anos de idade não estão contabilizados nos centros de emprego onde é feito o senso. Os jovens que terminam os cursos não têm saídas profissionais.

O Estado que, depois do Vinte e Cinco de Abril, tinha fortes funções sociais está a demitir-se, cada vez mais, delas, pois como sabemos quer transformar escolas e hospitais em empresas e disso é exemplo o aumento das taxas Moderadoras e o encerramento de escola; o financiamento das autarquias directamente pelos autarcas quando estes já alimentam cofres do Estado através dos impostos que são canalizados para o Orçamento Geral.

Por todas estas razões cada vez mais se justifica a luta política, Não basta denunciar, é preciso agir. Todos temos obrigação de denunciar e de agir. A acção é que leva à transformação e onde há injustiça há um Comunista a denunciá-la, onde é preciso lutar, há um comunista a fazê-lo. A oposição, em Portugal, é feita, principalmente, pelo Partido Comunista Português, pela CDU. Aqui nos Açores assumimos esta nossa vocação de oposição e apesar de não termos assento na Assembleia Legislativa Regional continuamos a denunciar e a agir em prol de um desenvolvimento harmónico para toda a Região. Temos desempenhado um papel fundamental que é reconhecido. Preciso é que esse reconhecimento seja traduzido em votos e que recuperemos os lugares que deixamos vagos na Assembleia. Não basta dizerem que fazemos lá falta, há que votar nas nossas listas.

Oitenta e cinco anos de história de Portugal, oitenta e cinco anos de idade do Partido Comunista Português.
"As gerações passam.
O testemunho é transmitido.
E o PCP continua comunista, a ser o Partido Comunista que é, e que queremos que continue a ser!"

Viva o Partido Comunista Português, viva Portugal
Abraços marienses
Lisboa, 13 de Março de 2006
Ana Loura