3 de fevereiro de 2006

“Que tens que ver connosco, Jesus de Nazaré?”



















Bom dia!

“Que tens que ver connosco, Jesus de Nazaré?”

Hoje o tema será recorrente. Há questões que fazem parte do meu dia-a-dia e a minha forma de estar na vida é um deles.
Quando alguém me pergunta como posso ser comunista e católica eu já sorrio pois ser as duas coisas, para mim, é ser só uma: ser o que sou. As pessoas perguntam-me meias a medo: “O teu padre sabe quem tu és?” ou o” Partido sabe que és católica?” Claro, que toda a gente sabe quem eu sou e o que sou. Assumo publicamente as minhas opções.

Raramente falto à missa. Faltar sim, para mim não ir à Missa é faltar. Quando, por qualquer razão, não vou sinto falta e só não vou quando estou numa terra onde não me sabem dizer a que horas se realiza ou se a igreja fica muito longe.

Ontem, claro que fui e senti-me particularmente bem. Há dias em que tudo ou quase tudo concorre para que nos sintamos bem e felizes.

Alguém, há uns anos, chamou-me beata e rata de sacristia…confesso que me senti triste, ofendida, principalmente, por ter o “insulto” saído de onde saiu. Aliás pensando bem foram duas as pessoas que me disseram isso e uma há bem pouco tempo. Na primeira vez calei-me mas da última pus-me em bicos de pés e disse: “Olha lá, se há duas coisas na vida em que não admito que ninguém se meta são nas minhas opções quer políticas quer religiosas, sou o que sou e quem quer gostar gosta e quem não quer gostar cala-se”. Assunto arrumado.

O que terá Jesus a ver comigo? O que terá Jesus a ver com todos e cada um de nós, cristãos? Ser cristão é seguir Cristo. O que é seguir Cristo?
Lembro-me tantas vezes do Padre Jacinto Monteiro e do brilho do olhar dele quando falava do amor louco de Cristo por nós, no Seu amor apaixonado à humanidade. Tão apaixonado que no Jardim das Oliveiras se deixou apanhar pelos soldados Romanos depois de Judas, numa provocação que pensava iria fazer Jesus pegar nas armas e assumir a liderança real do Povo e libertá-lo do jugo Romano, o entregou aos soldados.

Jesus foi abatido porque era pelos escravos, pelos pobres, pelos doentes, pelos desfavorecidos. Não foi o Povo quem matou Jesus, foi o poder instituído, foram os Romanos porque o poder Judaico, farisaico assim o quiz, com o cínico lavar das mãos de Pilatos, de toda a hierarquia judaica, excepto Nicodemos. O Povo, esse, foi manipulado pelos grandes, pelos poderosos, por aqueles que, arranjando testas de ferro, lacaios, sempre o manipula.
Portanto ser Cristão é ser pelos mais fracos, pelos desfavorecidos, pelos doentes do corpo e da alma e ser por eles é ser contra quem os desfavorece, contra quem não lhes dá emprego, quem os explora e, acima de tudo ter coragem de o ser. Não andar “acender velas a Deus e ao Diabo”. É dispor-se para servir quem precisa e onde é preciso. Não esperar sequer ser chamado, é ir ao encontro, pegar nas redes e nas enxadas, pescar nas águas tumultuosas e cultivar as vinhas desta vida.

Os Cristãos não se podem calar à injustiça, à prepotência, ao insulto, à miséria, aos aumentos dos preços, aos aumentos dos impostos, ao desemprego, à falta de solidariedade social, ao compadrio. O Cristão tem obrigação de denunciar alto e bom som, não de encolher os ombros e dizer…estou safo, desta vez não foi comigo. Para o Cristão é sempre com ele pois ser Cristão é seguir o mandamento maior, o mandamento do amar o próximo como a si mesmo.
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Assisti, ontem, ao espectáculo de comédia do actor José Pedro Gomes. Gostei do humor inteligente. A casa de cinema não estava lotada, mas razoavelmente composta. Uma aposta de uma organização que teve o mérito de arriscar numa aposta que, seguramente, ganhou.


Abraços marienses

Ana Loura
Santa Maria, 30 de Janeiro de 2006

3 comentários:

Desambientado disse...

De facto, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Apesar de não ser comunista, respeito muito quem o é. São normalmente pessoas com muitos princípios e valores, e que lutam por eles.

Um abraço.

Maria Antónia disse...

Em primeiro lugar quero agradecer porque tive o previlégio de receber a cópia da tua crónica, "acabadinha de sair do forno".
Sei também que não estás muito receptiva aos comentários naquele espaço a que, muito bem, chamas a tua tribuna. Mas na falta de nos encontrarmos, com tempo, cá vai a minha opinião, até porque eu sou das pessoas que já te disse não ser possível ser comunista e católico em simultâneo, falo do verdadeiro comunismo e da verdadeira igreja.
Não tenho nada contra uns, nem outros. Já votei na esquerda, frequento a igreja quando o espírito me pede e não tenho ligação substancial a nenhum partido, nem sou católica porque não comungo de todas as leis da igreja.
Tenho as minhas convicções e vivo segundo elas.
A Ana Loura para mim, não é comunista, nem católica, é uma mulher frontal, lutadora, culta e inteligente (não te babes) sensível ao ponto de se deixar abusar. A Ana é a Ana e o resto são tretas.
Continuo, no entanto, a insistir que só se pode ser comunista e católica em simultâneo porque nenhuma das duas te exige o integral cumprimento das suas ( desactualizadas mas vigentes) leis e princípios.
Perante a despenalização do aborto, és católica ou comunista?
Sobre os casamentos homosexuais, objecto de referência na última encíclica papal, segues a lei católica ou protestas com a esquerda?
Apoias o uso do preservativo ou reprovas, na base de que o sexo se fez apenas para procriação?
Não há lei que te impeça de ser católica e comunista, as opções é que não to permitem.
Por isso para mim, és a Ana,não a comunista, nem a católica, és apenas a Ana com as suas convicções.

Lua dos Açores disse...

Mitó
Fico muito feliz com a tua visita e comentário
Claro q estou receptiva a comentários, só não estou receptiva a que a coberto do anonimato alguém venha fazer deste espaço que é meu a sua tribuna e muito menos dizer coisas desagradáveis àcerca de mim ou das pessoas de quem gosto.
Agradeço-te todo o carinho que aqui me demonstras. Quanto às minhas convicções saberá quem me conhece que sou crítica em relação a algumas posições quer da Igreja Católica e a outras consideradas de esquerda. Praticar um aborto é da consciência de cada um. Mulher nenhuma, casal nenhum deveria chegar ao ponto de recorrer ao aborto, mas se o aborto é necessário que seja praticado em condições de segurança. Concordo com a união homosexual, mas não com o casamento legal. O casamento pressupõe a diferença de género. Aprovo o uso de qq método contraceptivo excepto da pílula do dia seguinte. Só em casos de comprovada necessidade. A pílula do dia seguinte é um recurso in extremis e não um método contraceptivo, assim como o aborto não pode ser considerado como tal. Agora eu não mando na consciência de cada um e Deus deu-nos liberdade de opção, o livre arbítrio. Quem faz a cama nela se deita e eu penso que fazer um aborto será tão traumatizante que mulher nenhuma o fará sem um imenso sofrimento que a acompanhará até ao fim da vida.
E sim, Mitó, eu sou Católica e Comunista. Escalpelizar estes conceitos não faz com que eu me deixe de sentir qualquer uma delas.

Beijinho e volta sempre

Terás sempre a porta deste meu espaço aberta como se fosse a porta da minha casa.